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A Relação do Psicanalista com a Profissão Impossível

Ao que parece, a expressão “profissão impossível” foi criada por Freud (1937) para servir como um estímulo aos jovens psicanalistas de então que, justamente por se decidir por essa prática tão difícil, complexa e custosa, poderiam contar com sua simpatia e apoio, pois ao lado do governar e do educar, psicanalisar seria uma atividade na qual, já de início, o praticante poderia estar preparado para se frustrar, pois os resultados estariam longe de ser satisfatórios.


O tempo demonstrou que Freud estava certo, afinal, bastaria apenas perguntar aos psicanalistas sobre os ossos de seu ofício, ou ainda como se dá a relação entre suas expectativas e o que de fato acontece no consultório, além de complexidades bem específicas, que se traduzem em dificuldades recorrentes, ou seja, na verdade trata-se de uma profissão pouco glamourosa, diferentemente do que a mídia mostra.

Ainda assim, os psicanalistas persistem, continuam tentando ofertar sua escuta e, como o campo psicanalítico demonstra, há uma produção efervescente de teorizações e pesquisas clínicas, com inúmeras publicações que demonstram a vitalidade dessa invenção que já tem mais de um século.


Nesse sentido, proponho que reflitamos um pouco mais sobre a relação de cada psicanalista com a profissão impossível, afinal, diferentemente de outras profissões, certos signos não podem ser excessivamente valorizados como, por exemplo, pensar em uma carreira bem sucedida de psicanalista, que indiscutivelmente não coincide com o que é chamado de um percurso psicanalítico, que inclui a própria análise e, claro, a condução dos tratamentos. Não faz sentido pensar em sucesso ou insucesso no fazer psicanalítico pois, no caso de uma análise em especial, o paciente pode interromper pois julga que o processo não estaria funcionando, algo que acontece, diga-se de passagem, mas também pode interromper porque o processo está funcionando, ou seja, como mensurar fracasso e sucesso a partir dessa constatação tão comum nesse fazer distinto?


Considero que uma boa saída é pensar a profissão como algo que está conectado diretamente com a dimensão inconsciente de cada psicanalista, ou seja, esse tópico deveria ser exaustivamente visto e revisto em sua indispensável análise pessoal, pois Freud (1930) deixa claro em seu texto Mal estar na civilização que, quando escolhido mais livremente, especialmente se for atravessado por alguma forma de sublimação, o trabalho tende a ser prazeroso e menos dependente de questões ordinárias, como por exemplo, ser o veículo que fornece condições financeiras para pagar as próprias contas no final de cada mês. Naturalmente, não devemos cair na ingenuidade de que o sistema econômico favorece a assunção da potencialidade de cada membro da sociedade, bastando apenas se dedicar individualmente e, com isso, tudo dará certo em termos de satisfação laboral. Não, a realidade da vida cotidiana demonstra que as coisas não se dão bem assim e, ainda assim, o psicanalista deve encontrar forças internas que o permitam suportar a existência da Psicanálise no mundo, pois depende, intrinsecamente, dos esforços de cada psicanalista, na solidão de sua práxis cotidiana.


Diante disso, valeria interrogar os psicanalistas porque persistem, se servem a alguma causa e, particularmente, se conseguiriam fazer algo diferente caso interrompessem sua atividade clínica. Senão, a pergunta poderia ser formulada de outra forma, interrogando porque, via de regra, os psicanalistas não se aposentam, quase sempre trabalhando até morrer. O que isso diz da relação com a profissão impossível?



 


DICAS DE LEITURA PARA APROFUNDAMENTO BIBLIOGRÁFICO:


FREUD, S. (1917). Uma dificuldade no caminho da Psicanálise. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 17, p. 171-184).



FREUD, S. (1930[1929]). O mal-estar na civilização. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 21, p. 81-178).



FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 23, p. 247-290).


SANTOS, L. A. R. O trabalho do psicanalista: das dificuldades da prática aos riscos do narcisismo profissional. 2011. 250 f. Tese (Doutorado) Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.



 

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