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O Lugar do Analista na Clínica com Bebês

Atualizado: 8 de mai. de 2023

Maria Prisce Cleto Teles Chaves


O trabalho sobre intervenções precoces com bebês e pequenas crianças, realizado por psicanalistas como Françoise Dolto, Maude Manonni e outros, sempre foi um desbravamento e uma questão para a psicanálise. Nós, analistas, que persistimos em nossas apostas porque acreditamos na grandeza desse trabalho, ousamos dizer que o colocamos na condição de uma aposta preventiva em saúde mental. Antes que o desespero se instaure nos leitores, principalmente naqueles que fazem parte do saber psicanalítico, gostaria de dizer que a prevenção a que nos referimos difere da idealização onipotente de que poderíamos fabricar um método que, tal como as vacinas, pudesse garantir ao bebê que se submetesse a ele a sua saúde mental. Sem ingenuidade, com muita pesquisa, sérios estudos e debates com vários grupos de analistas brasileiros, europeus e latinos, e após longos anos de clínica, podemos dizer que o significante prevenção se refere à intervenção o mais-a-tempo possível para a facilitação do surgimento do sujeito do inconsciente e de desejo.


Para nós, a linguagem é da ordem de uma substituição originária, tratando-se, portanto, de uma metáfora e, por isso, o significante tem a possibilidade de dizer mais, infinitamente mais, do que o dicionário pode fazê-lo. Assim é que, para nós desbravadores do inconsciente que nos dispomos a escutar e a intervir neste primeiro tempo do psiquismo, ou seja, no tempo inicial da constituição subjetiva, fundamental é que esclareçamos melhor esse significante portador de sua faceta bífida, apontando para a vertente do "pré" como anterioridade e do "venir" como vir entre. Previne porque trabalha com a temporalidade e com a intervenção.


A temporalidade em questão, longe de se referir à cronologia, apesar de esta ter parcela fundamental para a construção da imagem, trata-se de um tempo em que a lógica da instalação do circuito pulsional, circuito fundador do humano, precisa ser operacionalizada. É o momento fundamental que demonstra que o humano, ser de linguagem, não é regido pelo instinto: perde sua naturalidade. A importância do arranjo do simbólico com o imaginário para dar conta do real é condição inexorável para a civilização. O bebê e a pequena criança têm posicionamentos diferentes durante esse percurso. O bebê a princípio, vai em busca, desesperada e ativamente, do objeto da satisfação. Não o encontrando, tenta tomar como objeto seu próprio corpo: sugará seu dedinho ou a chupeta, por exemplo. Esse é um movimento que não é suficiente para saciar o bebê e ele então oferta-se como objeto para sua mãe. O movimento de alcançar novamente o objeto de satisfação da necessidade que trouxe junto o prazer será o que desencadeará uma impulsão psíquica que vai em direção a esse objeto, reinvestindo-o. Tal movimento, movido por uma força de Eros advinda do outro, aciona uma apetência simbólica, como nos diz Graziela Crispin, que se chama desejo (Wunsch) e instaura um circuito, o circuito pulsional. O trajeto da satisfação da pulsão é realizado em forma de circuito que se fecharia no ponto de partida, por isso trata-se de ir ao encontro do objeto que a criou. Como é impossível alcançar a primeira satisfação, pois não há como repetir igual, estabelece-se um circuito que é melhor imaginável se pensarmos num movimento em elipse. Podemos perceber isso com os mecanismos desenvolvidos pelo bebê para alcançar a satisfação: ele oferece o pezinho para que a mãe o beije ou a barriguinha para que, segundo o que se diz popularmente, ela possa “comê-la”. Esse é o tempo que Freud qualifica de “passivo”, mas que, de fato, é de muita atividade. Fazer-se olhar, fazer-se “gostoso” para a mãe estabelece uma dinâmica que espera-se que inclua prazer para ambos e, consequentemente, uma relação de gozo. É bom esclarecer que permanecer prolongadamente objeto do gozo tem implicações danosas na constituição psíquica de um bebê.


A falta real do objeto simbólico que produziria a satisfação inscreve a marca da presença de uma ausência. A impossibilidade de repetir igualmente a primeira experiência é porque uma parte da mãe é estranha. Freud (1895) a chama de “a coisa” (das Ding). Essa parte estranha é a que revela a incompletude materna, o seu vazio e a presença de Thánatos para além de Eros. Quebra a ilusão da mãe completa e de puro amor. É a descoberta de que ela não dá só prazer; oferta também a falta e o desprazer. Desta “coisa” (Unheimliche), tentamos escapar, porque ela revela a pulsão de morte que, inconscientemente, a mãe porta.


Entre os méritos das intervenções precoces está o foco no ato facilitador do descolamento da criança do lugar de objeto através do chamamento para a composição edípica da operação da função paterna. É claro para todos que trabalham com crianças que, quanto mais distantes elas se encontram de pertencer ao campo da linguagem, campo simbólico, mais submetidas ao inconsciente do Outro elas estão; mais próximo do lugar de objeto ainda situam-se e consequentemente mais submetidas aos desejos do Outro estarão.


Com Freud, aprendemos que o bebê atua, com seu corpo, suas funções, suas manifestações, como uma formação do inconsciente dos pais, principalmente da mãe. Nesse sentido, o bebê coloca em ato um retorno do recalcado. A sua presença real carrega o que não foi simbolizado e que marcou a família; muitas vezes, o que é da ordem da pulsão de morte. Em seus textos “Psicanálise e Telepatia” (1921) e “Sonhos e Telepatia” (1922), Freud admite “uma percepção de algo externo perante o qual a mente permanece passiva e receptiva” (FREUD, [1922] 1976, p. 251), esclarecendo que a presença de uma vinculação afetiva pode ser permeável à transmissão de marcas. No “Apêndice C” de A Interpretação dos Sonhos (1925), Freud aborda novamente a questão de transmissividade pela tonalidade afetiva. Em “Sonhos e Ocultismo” (1933), o psicanalista afirma que a telepatia é uma comunicação arcaica da origem humana, anterior à linguagem oral, que é ativada em situações especiais, como na paixão, na qual vigora o amor narcísico.


Dessa forma, pensamos que as crianças que não falam, principalmente os bebês, estão mais afeitas, nas relações familiares, a serem marcadas pelos processos mentais de seus pais. Os não ditos, ou melhor, o que permanece inconsciente no outro, principalmente no inconsciente materno, encontra-se mais suscetível a inscrições e revelações pelo bebê. O bebê é sensível ao que ocorre com a mãe e afetado com isso. Como os bebês não possuem as defesas advindas do recalque, eles revelam o inconsciente do outro em ato. Nos primeiros meses, nos quais o bebê está mais em estado de sonolência, estado similar aos processos de hipnose, ele se encontra sob o domínio do inconsciente menos censurado de sua mãe. O bebê é receptivo ao que tem o tom afetivo do inconsciente do outro. Neste tempo, só há um inconsciente, o inconsciente do outro, que se encontra sob estado alterado e tem força de transmissão, isso porque a presença do bebê desencadeia, na mãe, o retorno do recalcado da sua relação primária com a sua mãe e, portanto, não é raro encontrarmos projeções em plena atividade. O bebê é sede psíquica e os efeitos dessa projeção materna, desse relação carregada de amódio, são a base da construção do lugar de filho que esse pequenino ocupará. O bebê na condição de desamparado se sujeita a oferta deste lugar de filho. Como nos diz Lacan, é a escolha forçada, alienação necessária do primeiro tempo da constituição lógica psíquica. A mãe, desde a gestação, já está vivenciando o que Winnicott chamou de preocupação materna primária, estado sensível da grávida e puérpera em relação à presença real do bebê, em que a sua própria história é reativada.


Somos seres do simbólico, afetados pelos significantes do campo do Outro. Lacan se reportou a Freud quando este dizia que há um pensamento, que é inconsciente, advindo desse campo, de restos mnêmicos. Em O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan (1964) mostrou que tal pensamento inconsciente corresponde ao encadeamento dos significantes que recebemos muito antes de termos consciência de que existimos. Isso quer dizer que há uma representação mental inconsciente que desconhecemos e que é representativa da pulsão. Apenas portamos o traço, o traço unário dessa inscrição significante, que mais adiante veremos estar referido à voz e ao olhar do Outro. É o traço do objeto perdido, o traço que nos humaniza. O objeto perdido é, então, relativo à voz e ao olhar do Outro. Logo, pensamos porque estamos sob o vigor do campo pulsional, do olhar/voz do Outro.


Nossa questão hoje está na priorização do lugar do analista nessa clínica. A mãe e o bebê se encontram numa semelhante relação do analista com o analisando. Vejamos: na relação analítica, o analista se oferta a fazer parte do inconsciente do analisando, pois ali também só há um inconsciente. Assim como o bebê, ao analista cabe a atenção flutuante e a submissão à transferência, entretanto para o analista a transferência importante é ao desejo de analista e não ao amor. O analista oferta-se nas três instâncias ─ real, simbólica e imaginária ─ às marcas inconscientes do analisando e, com esse ofertar-se, acaba por vezes por capturar o amor de transferência do analisando e trazendo para si as questões recalcadas. Na clínica com bebês, o analista intermedeia da mesma maneira, facilitando que o bebê se oferte para que o amor de sua mãe tenha vigor e ele possa, junto com ela, construir um Outro primordial para essa singular relação.


O grande foco do clínico que trabalha com mãe-bebê é a escuta de como está se construindo o Outro primordial e das falhas que possam estar impedindo tal construção. Apesar de que sinais de uma “preocupação materna primária” possam estar sendo percebidos durante a gestação, é na presença real do bebê que efetivamente a construção desse Outro pode ser operacionalizada. O bebê é um fator fundamental para o estabelecimento do laço primordial. Precisa receber e acatar a demanda de sua mãe e demandar dela fazendo-se desejado, fazendo-se semblante do objeto perdido, do falo. Cabe ao analista que acompanha esse tempo, escutar o desenvolvimento desse processo em que o bebê deve emprestar-se sem se fundir ao objeto e no qual a mãe pode apaixonar-se pelo bebê revestido narcisicamente por sua voz e seu olhar afetados, seu canto de sereia, como nos diz Marie Christine Laznic (2004). Como mãe não é sereia e filho não é objeto perdido, a alternância e o processo de separação poderão barrar o gozo inebriante da alienação. Gozo barrado, possibilidade de advir de sujeito.


Clínica singular na qual há a urgência da intervenção. Audaciosa, porém, respeitosamente, calçado em sua ética, o analista se aproxima e, sob seu olhar/escuta, autoriza-se a intervir em ato, muitas vezes, principalmente nos órgãos públicos, contando apenas com uma única oportunidade de escuta da mãe com seu bebê. Clínica difícil, de aposta, de reconhecimento de sinais indicativos de risco à constituição subjetiva. Por isso uma clínica que consideramos de prevenção em saúde mental.



 

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Bibliografia


BERNARDINO, L.M.F. Um retorno a Freud para fundamentar a clínica psicanalítica com bebês e seus pais: Os estudos sobre telepatia. Estilos da Clínica, São Paulo, v. 9, n. 17, p. 94-103, dez. 2004,


FREUD, S. [1922]. Sonhos e telepatia. In: Edição Standard das Obras Completas de S. Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.


FREUD, S. [1921/1941]. In: Edição Standard das Obras Completas de S. Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.


FREUD, S. [1923]. Observações sobre a teoria e a prática da interpretação de sonhos. Apêndice C. In: Edição Standard das Obras Completas de S. Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1976.


FREUD, S. [1933]. Conferência XXX: Sonhos e ocultismo. Edição Standard das Obras Completas de S. Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.


LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.


LAZNIK, M.C. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Textos compilados por Daniele Wanderley. Salvador: Ágalma, 2004.


WINNICOTT, D. W. [1956]. A preocupação materna primária. In: WINNICOTT, D. W. Textos selecionados da pediatria à psicanálise. São Paulo: Francisco Alves, 1978.


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