“Canetas emagrecedoras": milagre, triunfo da ciência ou novo formato da obsessão pela magreza?
- Instituto ESPE

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Atualizado: há 5 dias
Texto escrito por Fernanda Pimentel e Cristiane Seixas.

Vivemos num tempo de promessas instantâneas, onde a fronteira entre a inovação clínica e o acessório de moda parece dissolver-se à velocidade de um "clique" nas redes sociais. No centro desse problema estão os medicamentos análogos do GLP-1 (Glucagon-Like Peptide-1), hormônio intestinal responsável por sinalizar ao organismo que está na hora de liberar insulina e de reduzir o apetite. A semaglutida foi a primeira substância a despontar no mercado criando alvoroço e trazendo esperança. Originalmente concebida para o controle glicêmico, a semaglutida transbordou os limites dos consultórios, ultrapassou as indicações clínicas iniciais para se tornar a "caneta milagrosa" de uma geração antenada na saúde, mas também obcecada por estética e controle.
É inquestionável que esse tipo de medicação constitui uma ferramenta importante em muitos casos clínicos. No entanto, a difusão da “caneta milagrosa” parece alimentar o imaginário de que num passe de mágica todos os problemas relacionados à comida, ao peso e ao corpo vão se resolver imediatamente. Nesse movimento, corre-se o risco dessa proposta milagrosa encobrir muitas camadas da complexidade psíquica e subjetiva implicada na obesidade.
Em psicanálise entendemos que o ato de comer envolve satisfação, afetos, memórias e pode ser até um modo de lidar com frustrações, angústias e conflitos que não encontram outra via de simbolização. O comer não se reduz, portanto, à satisfação de uma necessidade biológica, pois se inscreve na história do sujeito, na relação com o Outro e com os imperativos da cultura. Nesse sentido, a solução mágica das canetas e o silenciamento que elas acarretam pode deflagrar o que antes tinha a comida como escape, apoio e proteção, produzindo feitos que ultrapassam o plano metabólico. Afinal, com o milagre das canetas, não estamos correndo o risco de tentar solucionar com química um problema que na verdade é de outra ordem?
A preocupação que nos convoca a compartilhar questões neste texto relaciona-se ao uso para fins estéticos por pessoas que não apresentam indicação clínica, evidenciando a adesão a um ideal de perfeição nocivo e irreal, que facilmente se agrega à proliferação da ideia de um milagre, nesse caso, em forma de caneta, fato que psicólogos e psicanalistas têm testemunhado mais frequentemente nos últimos anos.
O rápido avanço dessa classe de medicamentos demonstra dados impressionantes, entre eles, a queda das taxas de obesidade pela primeira vez em décadas. Segundo levantamento do Gallup National Health and Well-Being Index (Witters; James, 2025), a taxa de obesidade entre adultos nos Estados Unidos recuou de 39,9% em 2022 para 37,0% em 2025, o que representa uma redução de aproximadamente 7,6 milhões de casos de obesidade em adultos. Esse declínio coincide com o aumento expressivo no uso de medicamentos análogos ao GLP-1, como a semaglutida, cujo uso para fins de perda de peso mais do que dobrou no período.
Mas essa é somente uma face do cenário. Sabemos de longa data que a preocupação com o peso e a imagem do corpo caminham lado a lado com os transtornos alimentares. Estudos mostram que a crescente insatisfação corporal está fortemente relacionada ao uso de redes sociais, pois esses espaços digitais intensificam as preocupações com imagem corporal por meio da comparação social, da internalização do ideal de magreza e da auto-objetificação (Dane; Bhatia, 2023). Curiosamente, nas redes sociais os efeitos milagrosos das canetas emagrecedoras são amplamente divulgados, sugerindo que queda da obesidade e a intensificação do sofrimento com o próprio corpo não são dados independentes. É nessa linha tênue e pouco investigada que nossa pergunta inicial se desdobra: as "canetas milagrosas" solucionam o problema crescente da obesidade ou reforçam um ideal de magreza que tem como consequência o aumento do risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares?
As canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis, de uso semanal, que atuam em hormônios ligados à fome, à saciedade e ao metabolismo. Originalmente, foram desenvolvidas para o tratamento da diabetes mellitus tipo 2, doença crônica caracterizada pela resistência do organismo à insulina e aumento dos níveis de açúcar no sangue. Só posteriormente foram aprovadas oficialmente para tratamento e controle do peso em pessoas com sobrepeso ou obesidade.
Ozempic, é um dos nomes comerciais da semaglutida que mimetiza a ação do GLP-1, aumentando a secreção de insulina, diminuindo a produção de glucagon e retardando o esvaziamento gástrico, o que cria uma sensação de saciedade prolongada. Foi autorizado pela ANVISA em 2018 para o tratamento da diabetes mellitus tipo 2, mas, desde o início, com a constatação da drástica perda de peso e sensação de saciedade prolongada, foi utilizado off-label para fins de emagrecimento.
O formato de canetas autoaplicáveis, permite a administração das espetadas semanais sem grandes dificuldades e de forma prática. Tal facilidade não se verifica na hora de pagar a conta: o tratamento custa cerca de R$1.000 a R$1.800/mês, ou seja, algo entre 61,7% e 112% do salário-mínimo brasileiro (Seixas et al, 2025).
Em janeiro de 2023, a mesma semaglutida foi aprovada pela ANVISA com o nome de WeGovy. Mesma medicação, mas agora com dosagem maior e, pela primeira vez, com indicação oficial para controle de peso, incluindo perda e manutenção. O que era off-label se tona on-label, hypado e o assunto do momento no Brasil inteiro, alterando não só o peso do corpo de quem usa, mas também os almoços de família e até a indústria gastronômica.
No mesmo ano chega no Brasil o Mounjaro, outro análogo ao GLP-1, mas com um princípio ativo diferente do Ozempic e do WeGovy: a tirzepatida. A diferença está no mecanismo de ação: enquanto o Ozempic atua apenas sobre o GLP-1, o Mounjaro atua simultaneamente sobre dois hormônios, o GIP (Glucose-dependent Insulinotropic Polypeptide) e o GLP-1, ambos envolvidos na regulação do açúcar no sangue e na sensação de saciedade. Com esse duplo mecanismo, o medicamento promete melhor controle da glicemia, maior saciedade e, é claro, maior perda de peso. Em 2025 passou a ser indicado oficialmente para o tratamento do sobrepeso e da obesidade.
Esse benefício maior não vem sem um preço maior, que pode ultrapassar R$ 1.700 e chegar a R$ 2.300 por caneta, ou seja, de 104,9 % a 141,8 % do salário-mínimo brasileiro. O alto custo desse medicamento alimentou um promissor mercado paralelo que conta, até mesmo, com promoções de final de ano, carnaval e um eficiente sistema de delivery.
Mas nem tudo são flores... Estudos recentes apontam uma série de efeitos colaterais como náusea, vomito, diarreia, refluxo, azia e lentidão gástrica são frequentemente relatados, assim como efeitos mais graves como pancreatite aguda, doenças da vesícula biliar, complicações relacionadas ao uso de anestesia em procedimentos cirúrgicos, depressão, suicídio, automutilação e possíveis efeitos ainda desconhecidos (Ruder, 2023).
Porém um dos principais alertas em relação às canetas emagrecedoras é o que acontece quando o tratamento é interrompido. Estudos mostram que o efeito dos medicamentos depende do uso contínuo — e que, sem eles, o peso tende a voltar rapidamente. Uma revisão publicada no periódico BMJ em janeiro de 2026, que analisou dados de mais de 9 mil pacientes, mostrou que pessoas que pararam de usar semaglutida ou tirzepatida recuperaram em média cerca de um quilo por mês, com projeção de retorno ao peso inicial em cerca de um ano e meio. O ritmo de reganho foi mais acelerado do que o observado em pessoas que simplesmente abandonaram dietas ou programas de exercício (West et al, 2026).
Outro aspecto a ser discutido é referente à patente da semaglutida que está prestes a “cair” em vários países, incluindo o Brasil, abrindo espaço para versões genéricas ou biossimilares. Quando se diz que uma patente “cai”, na prática isso significa que o período de exclusividade terminou. A partir do próximo mês, outras empresas poderão fabricar e vender medicamentos com o mesmo princípio ativo do Ozempic sem pagar royalties ao titular original, o que gera uma queda de preço significativa. Estima-se que por aqui a queda pode atingir 50% do valor inicial, aumentando o acesso e consequentemente o uso. Se atualmente o custo é um limitador no acesso ao Ozempic, em breve esse limite será consideravelmente reduzido.
O uso estético por pessoas sem indicações clínicas é uma tendência global. Impulsionada pela ausência de políticas restritivas de prescrição, mesmo com o risco de complicações e efeitos colaterais, é crescente o uso entre pessoas sem complicações relacionadas ao peso. Com a queda do preço, esses números devem aumentar significativamente.
A influência de celebridades tem sido determinante na popularização do medicamento. Pesquisas afirmam que menções ao uso de semaglutida por figuras públicas resultaram em picos de busca pelo termo "Ozempic" no Google, com aumentos de até 500% nas 48 horas seguintes a declarações de celebridades sobre o uso do medicamento para emagrecimento (Oliveira et al. 2023).
O uso indiscriminado do Ozempic representa um fenômeno que transcende a esfera clínica, atingindo dimensões sociais, econômicas e éticas. Do ponto de vista social, a medicalização do corpo e o consumo desses medicamentos configuram um fenômeno cultural contemporâneo. Segundo Fong e colaboradores (2024), a análise de postagens em plataformas como Reddit demonstra que o discurso sobre o medicamento vai além do campo médico, assumindo contornos de pertencimento social e valorização estética.
Essa perspectiva revela que os análogos do GLP-1 passaram a ocupar o imaginário coletivo como ferramenta de sucesso e autocontrole, descolando-se de seu propósito terapêutico original. Outros estudos recentes apontam que a popularização do Ozempic para fins estéticos decorre, em grande parte, da influência digital e da banalização do emagrecimento rápido como símbolo de status e autocontrole (Basch et al., 2023).
A transformação de um medicamento de prescrição restrita em objeto de desejo e artigo de luxo, tem muitas consequências entre elas a desvalorização da complexidade da obesidade e todas as camadas que essa questão envolve. A queda da obesidade e a ascensão dos transtornos alimentares não são, portanto, dados independentes: são sintomas de uma mesma cultura que patologiza, com igual intensidade, tanto o corpo em excesso quanto o corpo em falta.
Diante de temas polêmicos concernentes ao campo da saúde, uma área específica que discute sobre ética em saúde vem se desenvolvendo e se diversificando significativamente. A bioética, campo científico que examina as implicações éticas das práticas biomédicas e biotecnológicas sobre a vida humana, confronta-nos com o princípio básico: um fármaco deve ser usado quando o benefício terapêutico supera o risco. A semaglutida tem indicações precisas para a obesidade clínica (IMC ≥30 kg/m² ou ≥27 kg/m² com patologias associadas). No entanto, o seu uso por indivíduos em busca de uma "correção estética" rápida perverte esse princípio numa balança contaminada pelas exigências biopolíticas de nossa época: parece que começa a valer a pena correr o risco de pancreatite aguda para se livrar de alguns quilos, um exemplo clássico do “morro, mas morro magra!”
A história dos medicamentos para obesidade traz lições importantes que não podem ser ignoradas. Desde a década de 1930, as anfetaminas foram amplamente prescritas para perda de peso nos Estados Unidos, chegando ao auge com as chamadas "rainbow diet pills" — combinações de anfetaminas, barbitúricos, hormônios tireoidianos, diuréticos e laxantes — que foram banidas no final dos anos 1960 após uma série de mortes e efeitos adversos graves. Estudos subsequentes documentaram uma relação robusta entre estimulantes como anfetaminas e cocaína e o desenvolvimento de transtornos alimentares. (Bahji et al, 2019).
Com os análogos do GLP-1, a história pode não se repetir exatamente da mesma forma, mas os sinais de alerta já começam a aparecer. Organizações especializadas em transtornos alimentares nos Estados Unidos, como a National Eating Disorders Association (NEDA), alertam para o risco do uso indevido entre pessoas com transtornos alimentares como anorexia nervosa e bulimia. Como são medicamentos que levam a uma perda rápida de peso e à desnutrição, podem agravar os sintomas característicos dos transtornos alimentares como a preocupação com imagem corporal e obsessão pelo peso. Apesar de ainda faltarem estudos examinando o impacto dos análogos do GLP-1 em pessoas com histórico de transtornos alimentares, o que tem chegado na clínica são mulheres com histórico de anorexia na infância ou adolescência que se veem tentadas a fazer uso do medicamento mesmo sem prescrição médica, reativando padrões restritivos antigos que podem levar ao uso secreto da medicação.
Esse é um outro viés que ainda precisa ser explorado, a saber: seu potencial uso abusivo ou inadequado sem prescrição, levando, porventura, a uma superdosagem ou ao desenvolvimento de transtornos alimentares, uma vez que a manutenção da perda ponderal é dependente da continuidade do uso. O cenário se torna ainda mais complexo quando se considera que o treinamento para a triagem e diagnóstico dos transtornos alimentares ainda é muito limitado nas disciplinas médicas mais amplas, como medicina de família, pediatria e endocrinologia. Assim, pacientes com anorexia atípica e bulimia não-purgativa têm maior probabilidade de não serem diagnosticados – ou serem diagnosticados erroneamente como tendo transtorno de compulsão alimentar.
Na bioética, benefício terapêutico não é sinônimo de satisfação, adequação estética ou conformidade social. Ele se refere à redução da morbidade, prevenção de complicações graves, melhora funcional objetiva e aumento de qualidade de vida em termos clínicos. Isso é decisivo para o debate atual, porque emagrecer pode trazer benefícios, mas nem todo emagrecimento é terapêutico se ele acarretar prejuízos maiores que os benefícios.
Quando um tratamento importante se torna a “caneta milagrosa” para deixar todo mundo no padrão estético vigente, corremos o risco de transformar uma boa alternativa farmacológica para auxiliar o tratamento de questões complexas em ferramenta para otimização da vida, em instrumento de performance ou em tecnologia a serviço da gestão de si mesmo. Nesse contexto, o princípio da bioética cai por terra, porque o "benefício" se torna “eficiência” e “satisfação”, deixando o risco totalmente banalizado e individualizado, já que cada um é responsável por suas escolhas.
Quando um tratamento importante se torna a “caneta milagrosa” para deixar todo mundo no padrão estético vigente, corremos o risco de transformar uma boa alternativa farmacológica para auxiliar o tratamento de questões complexas em ferramenta para otimização da vida, em instrumento de performance ou em tecnologia a serviço da gestão de si mesmo. Nesse contexto, o princípio da bioética cai por terra, porque o "benefício" se torna “eficiência” e “satisfação”, deixando o risco totalmente banalizado e individualizado, já que cada um é responsável por suas escolhas.
Referências
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