Um Breve Percurso sobre a História da Psicanálise
- Instituto ESPE

- 20 de abr.
- 3 min de leitura
Conheça a trajetória da psicanálise desde Freud até os dias atuais e entenda como a escuta e o inconsciente moldaram essa prática clínica
A história da psicanálise começa com Freud no final do século XIX, a partir da escuta dos sintomas histéricos, e evolui até hoje como uma prática centrada no inconsciente, na fala e na compreensão da subjetividade humana.
A história da psicanálise começa com Freud no final do século XIX, a partir da escuta dos sintomas histéricos, e evolui até hoje como uma prática centrada no inconsciente, na fala e na compreensão da subjetividade humana.
A psicanálise surge na virada do século XIX para o século XX com a necessidade de criação de um novo método de tratamento para o que na época apresentava-se como um desafio específico: a larga incidência de sintomas conversivos ou, como atualmente denominados pelo campo psiquiátrico, os sintomas somatoforme. Diferentemente dos sintomas psicossomáticos que tem como ponto de partida uma questão psíquica, mas que apresentam lesões observáveis de órgãos, os sintomas conversivos eram vividos como experiências corporais, mas sem quaisquer indícios de alterações significativas no corpo físico. Nesses quadros que ficaram conhecidos como neuroses histéricas, descritos então como perdas de movimentos, ausência de mobilidade ou sensação de partes do corpo, hipersensibilidades, dores difusas, perdas de funcionalidades ou seus excessos, notava-se a presença marcante da questão da corporeidade, mas sem condições de localizar no organismo quaisquer razões ou causas. Enquanto o campo da medicina dividia-se entre, de um lado, tentativas experimentais e muito insipientes de tratamento e, de outro, a negação e o não reconhecimento da veracidade desses relatos (entendidos como simulações ou falhas morais), surge nesse contexto um jovem pesquisador disposto ao exercício simultâneo da clínica e da produção teórica: tratava-se de Sigmund Freud.
Sua primeira contribuição foi, dentre todas, a mais simples e mais essencial: a dedicação à escuta. A psicanálise nasce, portanto, da transposição da observação (o “ver” os corpos e os sinais dos sintomas) para a escuta dos sujeitos. É nesse sentido que Freud formulou uma de suas teses iniciais: a de que os histéricos sofrem de reminiscências, ou seja, do peso de suas lembranças. Abriu-se, portanto, duas perspectivas extremamente importantes e que moldaram o formato da psicanálise de seus primórdios até a nossa contemporaneidade: (1) a de que somos sujeitos de linguagem; e (2) que a nossa relação com os outros, nossa própria história e nossos corpos não responde necessariamente a destinos pré-determinados pela natureza, mas são compostos por uma tecitura de palavras e lugares que chamamos de sexualidade.
Assim posto, a teoria e clínica freudiana teve como ponto de partida os modos como os corpos serviram para representar o que não poderia ser dito por outras vias: as falas silenciadas pela violência contra as mulheres, a perda da autonomia a respeito de seus destinos e seus corpos, e o mal-estar causado pela imposição de meios de vida objetificantes em nome de uma moral supostamente civilizada. Havia falas que precisavam ser libertadas, e elas ainda existem. Havia formas de vida que precisavam ser reformuladas, e elas ainda existem. Havia muito a ser dito e sentido por trás de séculos de silenciamento, e, infelizmente, nossa realidade ainda está muito aquém da liberdade e dignidade que sonhamos para todos e todas.
A história da psicanálise pode, então, ser resumida como a criação de um dispositivo clínico que permite aos mais diversos sujeitos falarem sem julgamento, a serem escutados sem o peso da moral e a terem a sua disposição um método moldado por décadas de discussões científicas a respeito de como escutar o que nos é mais fundamental: o fato de que somos sujeitos divididos. Freud congrega essas teses em torno de uma aparentemente simples, mas repleta de consequências as mais interessantes: a de que a nossa consciência é sobre determinada pelo inconsciente. Entender a divisão do sujeito, nesse sentido, é recorrermos ao dito freudiano de que “o eu não é senhor em sua própria morada”. Logo, todas as nossas ações, nossos sonhos, vontades, comportamentos e pensamentos tem como ponto de partida algo para além de nossa capacidade consciente de apreensão. O inconsciente seria, assim, esse não realizado que pulsa por se fazer ouvir, seja pelos nossos sintomas psíquicos, por formas de experiências corporais mas, também, pela arte, pelos sonhos e pelos nossos anseios mais profundos. Passado mais de um século desde os textos iniciais de Freud, tendo visto reformulações extremamente importantes tais como aquelas presentes nas obras de Melanie Klein, Donald Winnicott, Jacques Lacan, dentre outros, a psicanálise em suas diferentes roupagens mantém em si sua característica essencial: a de ser uma clínica baseada na associação livre, na escuta do sujeito do inconsciente e na aposta de que é possível através da fala libertarmo-nos do que fomos para tornarmo-nos sujeitos à altura dos nossos desejos.




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