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Quem é Sigmund Freud?

  • Foto do escritor: Instituto ESPE
    Instituto ESPE
  • 6 de mai.
  • 8 min de leitura

Texto escrito por Renata Wirthmann, Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília com pós-doutorado em Psicanálise pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora da Pós-graduação em Psicanálise com Crianças e Adolescentes do Instituto ESPE.



Freud inventou a psicanálise e todos os psicanalistas que vieram depois, como Klein, Lacan, Dolto ou Winnicott, só puderam construir seus campos teóricos a partir de um retorno à Freud.


É interessante pensar que, do mesmo modo que não existiria e não existe psicanálise sem Freud, podemos considerar que o próprio Freud seria um desconhecido na história do mundo sem a psicanálise que o transformou em um dos maiores nomes do século XX. Por essa relação tão indivisível entre Freud e a psicanálise, convido a conhecer a teoria a partir da vida de Freud, seu criador.

Toda história precisa de um começo, então escolho iniciar esse percurso pelo seu nascimento. Sigmund Schlomo Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, Morávia (hoje Príbor). A família morava na Schlossergasse 117, um sobrado simples, em cima de uma ferraria. Pouco depois, os Freud deixaram Freiberg: foram a Leipzig em 1859 e, no ano seguinte, instalaram-se em Viena. A família passava por grandes dificuldades financeiras que se agravavam com o crescimento da prole - somente os filhos de Jacob com Amalia, do qual Freud era o primogênito, somavam-se oito. 

Os pais de Freud possuíam uma grande diferença de idade. Jacob Freud (1815–1896) teve três casamentos. O primeiro ainda na adolescência, tanto que, aos dezenove anos, já era pai de dois filhos. A primeira esposa de Jacob foi Sally. Com sua morte, Jacob se casou pela segunda vez com Rebekka, filha de negociante, e não tiveram filhos.  

Em 29 de julho de 1855, Jacob celebrou o terceiro casamento, agora com Amalia Nathansohn (1835–1930), vinte anos mais jovem do que ele. Essa assimetria geracional entre Jacob e Amalia instalou um embaralhamento de lugares de parentesco traduzido em um labirinto familiar, que aparecia, por exemplo, na fantasia de Freud, imaginando, ainda menino, que o meio-irmão Philipp (filho do primeiro casamento de Jacob) era o verdadeiro esposo de sua mãe e que o pai era seu avô. Essa confusão fantasmática de Freud produziu uma combinação de afeto e interdito que, mais tarde, serviria de matriz clínica para uma de suas mais importantes elaborações: o Complexo de Édipo. 

Outro efeito causado pela grande diferença de idade dos pais era a imagem ambivalente que Freud tinha do seu pai; por um lado, a de uma forte figura patriarcal, e de outro, como homem velho, fraco e humilhado. Essa ambivalência aparece na obra de Freud nas suas elaborações sobre a figura do pai morto da horda primitiva em Totem e tabu: esse pai primordial tirânico que monopolizava as mulheres e expulsava os filhos é morto pelos filhos que se unem e retornam para matá-lo. Este ato parricida funda a lei pois, paradoxalmente, o pai morto torna-se mais poderoso do que quando vivia, visto que sua tirania é introjetada, instituindo interditos que agem a partir do plano psíquico, nomeados como supereu. 

Ainda acerca da relação de Freud com seu pai, quando Jacob morre em 1896, Freud sonha com uma placa brandindo a frase: “Solicita-se que feche os olhos.” Ao despertar, Freud nota que o sonho lhe oferecia duas possibilidades de interpretação: luto e culpa, elementos fundamentais para a gênese das neuroses.

Agora vamos analisar as influências da vida de Freud sobre a sua obra, advindas do lado da sua mãe. A mesma diferença de idade que demarcava a imagem decadente do pai servia para ressaltar a descrição da mãe como jovem, bela e desejável. A relação de Freud com a mãe é um dos núcleos autobiográficos mais importantes de sua teoria. Peter Gay, biógrafo de Freud, observa que Freud ansiava pelo amor da mãe e temia perdê-la, medo que aparecia em alguns de seus sonhos infantis, como quando sonhou com Amalia sendo carregada por figuras de bicos de pássaro. Este sonho, após interpretação em sua autoanálise, indicava a importância de seu desejo infantil por sua mãe, que sustentaria, posteriormente, a tese da sexualidade infantil e a articulação edípica do desejo e da proibição.   

Do ponto de vista conceitual, a centralidade do vínculo mãe-filho aparece não só na clínica (sonhos, sintomas, fantasias de cena primária), mas em formulações explícitas de Freud sobre o lugar da mãe. Elizabeth Roudinesco, psicanalista e historiadora, aponta que foi através da análise da relação entre mãe e filho que surgiram conceitos como narcisismo, escolha de objeto e sobre os destinos das pulsões e investimentos amorosos.  Percebemos, a partir da importância desse vínculo, que o desejo pela mãe é tomado como um operador universal.  A relação com Amalia é um fio estruturante que atravessa conceitos-chave como sexualidade infantil, Édipo, fantasia e culpa. 

Seguindo o percurso da vida e da obra de Freud, é pertinente analisar um outro dado biográfico relevante sobre a ordenação do espaço domiciliar. Na infância, Freud viveu em casas modestas e cheias. Mesmo em penúria, Freud foi declarado como o favorito da família e, segundo o depoimento da sua irmã Anna, sempre teve um quarto só dele, o que era excepcional para o padrão da época.  

Em 1875, já estudante, os Freuds mudaram para um apartamento de seis cômodos: os pais, as cinco irmãs e o caçula Alexander se apertavam em três quartos, enquanto Freud ficava sozinho no seu gabinete, um cômodo comprido e estreito, com janela para a rua, cada vez mais abarrotado de livros. Lá ele estudava, dormia, muitas vezes comia e também recebia colegas de estudo. Naquela casa de seis cômodos, viviam nove pessoas, mas o espaço mais privilegiado era o de Freud, o primogênito estudioso.    

Um famoso exemplo desse favoritismo de Freud ficou explicitado num episódio em que Freud reclamou que as lições de piano das irmãs atrapalhavam seus estudos. Poucos dias depois, o piano sumiu e nunca mais voltou. Este é um retrato claro do lugar que Freud ocupava e da expectativa que depositavam sobre ele naquela família.


Ainda enlaçado à origem familiar, um outro aspecto de extrema importância é o fato de que Freud era judeu. A judeidade marcou sua vida e obra em dois planos entrelaçados: o social (experiência de exclusão/pertencimento na Viena antissemita do fim do século XIX) e o teórico (o modo como pensou muitos de seus conceitos e a própria forma de transmissão da psicanálise).

A posição combativa de Freud diante das manifestações de antissemitismo ficam bastante explicitadas em seu percurso acadêmico. Após uma vida escolar como primeiro da classe por anos, Freud ingressa na Universidade de Viena, em 1873, aos dezessete anos, para cursar medicina. Na universidade, Freud tomou uma posição bastante combativa contra as perseguições antissemitas que sofria e chegou a enfrentar agressores erguendo sua bengala (sim, Freud já usava a bengala na juventude, não por necessidade, mas por status). 

Por causa dos constantes ataques que sofria, Freud era muito mais judeu diante dos antissemitas nas ruas e na faculdade do que em casa. No plano conceitual, essa condição judaica atravessa temas centrais de sua obra. Em Moisés e o monoteísmo, o “judeu sem Deus” (como Peter Gay o caracteriza) volta às origens para pensar, com ferramentas psicanalíticas, o parricídio fundador, a culpa e a lei; o livro toca explicitamente seu passado judaico e o fenômeno do antissemitismo. Podemos afirmar, portanto, que ser judeu deu a Freud um lugar social de margem - que o empurrou à independência intelectual; um objeto crítico privilegiado e um formato de transmissão da psicanálise.  

Por fim, avançamos para o percurso profissional de Freud. Depois de se formar em Medicina, em 1881, Freud continuou seus estudos em laboratório. Em 1882–83 entra no Hospital Geral de Viena, onde passou cinco meses observando de perto a psiquiatria, e decide seguir pela via da neurologia, passo que o levará à docência universitária como livre-docente em 1885.   

Nos primeiros anos de 1880, o propósito de Freud era bastante prático: formar, trabalhar e casar. Em 1884 investe na pesquisa sobre a cocaína e publica Sobre a coca (1884), acompanhando de perto seus efeitos terapêuticos. Na sequência, Freud busca um horizonte fora de Viena, passando quatro meses e meio em Paris (1885–1886), na Salpêtrière com Charcot, e fica impressionado com a clínica da histeria. 

Ao voltar, anuncia-se, em Viena, como médico de Doenças Nervosas, com horário de consultório na Rathausstraße 7, recebendo doentes enviados por Breuer e Nothnagel, e passa a viver de consultas. Paralelamente, segue publicando em neurologia, lançando, em 1891, o estudo crítico Sobre a concepção das afasias, o qual consolida sua autoridade de médico-neurologista.  

No terreno das doenças nervosas, sua clínica vai ampliando até que ele publica, juntamente com Josef Breuer, o caso Anna O. nos Estudos sobre a histeria (1895). O caso de Anna O. (cujo nome verdadeiro é Bertha Pappenheim) é a porta de entrada da psicanálise porque desloca a clínica da sugestão para a palavra. A experiência de fala da paciente foi nomeada por ela como “talking cure” e “limpeza de chaminé”. 

Entre 1895 e o final da década, Freud abandona a hipnose e a catarse, introduz a associação livre e, pouco a pouco, passa a chamar sua prática de psicanálise, coroando o ciclo com a publicação do livro A interpretação dos sonhos (1900).

Juntamente com a nomeação de seu trabalho como psicanálise, Freud inventa uma prática que exige o abandono da sugestão e da catarse e passa a trabalhar com a associação livre, atenção flutuante, manejo de transferência e um pacto ético em torno da palavra. O dispositivo do divã se torna uma marca simbólica: de um lado, o paciente fala, tropeça, recorda, esquece; do outro, o analista sustenta a cena, interpreta, devolve, faz operar a lógica do inconsciente. Ao eleger os sonhos como via régia, Freud inaugura um método de decifração do inconsciente que considera que o desejo escreve com cifras, e a interpretação é o exercício de ler essa escrita sem o impulso de fazer qualquer redução. 

No percurso de suas descobertas, Freud permitiu divergências e releituras. Entre seus discípulos mais próximos estavam Ferenczi, Abraham, Jones, Rank e Reik. Mas a história da psicanálise também é marcada pelas cisões: Adler rompeu cedo, em 1911; Jung, que inicialmente parecia herdeiro, afastou-se em 1913; e outros, como Stekel e Rank, também seguiram caminhos próprios. Esses conflitos internos não destruíram o movimento, mas o obrigaram a se reinventar e se multiplicar em diferentes correntes e escolas.

A Viena que o formou colapsa sob o antissemitismo e a violência de Estado. Em 1938, com a anexação da Áustria pelo Reich, a família se reorganiza para o exílio, a biblioteca e o consultório são desmontados, as cartas ganham um timbre de urgência, e a ética de liberdade que sustentou a psicanálise se traduz em gesto político: partir. O último capítulo, em Londres, tem a gravidade de um testamento. Freud escreve, recebe, trabalha, preserva a dignidade até o limite do corpo — e morre em 1939.

Ao longo de toda sua vida, Freud produziu uma obra vasta que se estendeu por mais de vinte volumes e inaugurou um vocabulário inteiramente novo: inconsciente, recalque, transferência, pulsão, narcisismo, supereu, sublimação, luto, angústia, sintoma, ato falho, sonho. Cada um desses termos passou a fazer parte não apenas do discurso psicanalítico, mas também da linguagem comum da cultura. Freud criou mais de cinquenta conceitos fundamentais que se tornaram matrizes de leitura para a experiência humana. Importante lembrar que a psicanálise não é um sistema fechado, mas um material vivo, continuamente reelaborado. Hoje, a psicanálise existe em múltiplas línguas e sotaques, se expandiu pela Europa ocidental, atravessou o Atlântico, consolidou-se nas Américas, encontrando na América Latina um terreno particularmente fértil. No Brasil, a psicanálise também se tornou parte do vocabulário e cultura.

A influência de Freud não se restringiu à clínica. Ele dialogou intensamente com a arte e a literatura. Freud escreveu sobre o Moisés de Michelangelo, sobre Leonardo da Vinci, sobre Hoffmann, Sófocles, Shakespeare, Goethe e Dostoievski. Seus conceitos abriram novas leituras para a criação artística, sendo retomados por escritores e artistas como Thomas Mann, Musil, Breton, Joyce, Virginia Woolf e Kafka.



 
 
 

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