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Vida e Obra de Jacques Lacan

  • Foto do escritor: Instituto ESPE
    Instituto ESPE
  • 24 de fev.
  • 7 min de leitura

Texto escrito por Renata Wirthmann, Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília com pós-doutorado em Psicanálise pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora da Pós-graduação em Psicanálise com Crianças e Adolescentes do Instituto ESPE.


Jacques-Marie Émile Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, no ano de abertura do século XX, e faleceu na mesma cidade em 11 de setembro de 1981. Filho de Alfred Lacan e Émilie, o pai desejava que ele seguisse no ramo do comércio, perpetuando a origem burguesa da família, tradicionalmente católica.


 Lacan viveu as duas guerras mundiais e uma grande sequência de acontecimentos históricos que atravessaram sua vida e obra, situando sua formação intelectual e clínica num continente em convulsão. O percurso dos Seminários de Lacan é, a um só tempo, a melhor cronologia de sua vida intelectual e o lugar onde seus deslocamentos teóricos se deixam ler à luz dos acontecimentos históricos do século XX. Do primeiro ao último, os Seminários operaram como dispositivo de um pensamento contínuo, em uma cena pública, na qual Lacan foi construindo seu percurso teórico, a partir do retorno a Freud, ano a ano, ao longo de décadas. 


Adolescente durante a Primeira Grande Guerra e psiquiatra maduro na Segunda, Lacan experimentou o impacto direto dos conflitos bélicos sobre seus estudos e pensamentos. No período da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), ele tinha de 13 a 17 anos, e era aluno do Collège Stanislas. Na Segunda Guerra (1939–1945), Lacan viveu dos 38 aos 44 anos, já era psiquiatra e se manteve ligado ao hospital Sainte-Anne, onde trabalhava. O ambiente histórico em que Lacan se forma é o da França do pós-Primeira Guerra Mundial, atravessada por transformações estéticas e por reordenações institucionais da psicanálise europeia. Esse período o apanha como adolescente que sonha com a carreira pública, longe do front, mergulhado no clima de mobilização e de reconfiguração cultural que moldou suas ambições e seu circuito intelectual de elite na capital francesa. 


No período entre as duas guerras, Lacan se formou em Medicina em Paris, fez residência em psiquiatria e consolidou sua carreira no Sainte-Anne, onde se tornou interno, apresentou doentes, deu conferências e construiu a clínica que fundamentaria seu ensino posterior; em 1932, defendeu a tese Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade (caso Aimée), que já articula sua clínica psiquiátrica à leitura da obra de Freud.  


Na década de 1930, Lacan conviveu com importantes nomes como Éluard, Dalí, Bataille, Malraux e Barrault; isto é, um círculo que relaciona arte, linguagem e experiência do real e que influenciou sua teorização do imaginário e do simbólico. Neste período entreguerras, sua primeira grande produção teórica dentro da psicanálise foi sobre o estádio do espelho, uma fala realizada na cidade de Marienbad, em 1936. No mesmo verão, Lacan assiste às Olimpíadas de Berlim, que, como sabemos, foram planejadas como vitrine do Terceiro Reich com estádios monumentais cobertos de suásticas e a presença constante de Hitler nas cerimônias.


Poucos anos antes, em 29 de janeiro de 1934, Lacan havia se casado com Marie-Louise Blondin, com quem teve três filhos: Caroline, Thibaut e Sibylle. Simultaneamente ao seu primeiro casamento, a partir de 1937, Lacan se envolveu com a atriz Sylvia Bataille, então separada de Georges Bataille. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sylvia, judia de origem romena, teve que se manter escondida da perseguição nazista, ao mesmo tempo que mantinha o relacionamento com Lacan. Deste romance clandestino, nasce Judith Bataille, que se tornará mais tarde Judith Miller (ao se casar com Jacques-Alain Miller), mas reconhecida oficialmente como filha de Lacan apenas em 1964.


Retomando à vida intelectual, constatamos que a Segunda Guerra Mundial reorganizou todo o mapa da psicanálise. A diáspora forçada pelo nazismo desloca o centro gravitacional do movimento para os países de língua inglesa, ao passo que sociedades e institutos se reconfiguram. Freud sai de Viena, em 1938, para se refugiar em Londres; outros analistas migram para a Inglaterra e os EUA, fazendo com que a hegemonia teórica se reescreva sob o impacto da psicologia do ego e de outros analistas ingleses. O deslocamento da psicanálise para o mundo anglófono levou a uma institucionalização da teoria que, com o tempo, tendia a domesticar a peste freudiana e pareciam querer produzir uma peste pasteurizada. Durante a Segunda Guerra foram presenciadas fogueiras de livros, perseguição aos psicanalistas e deslocamentos institucionais. É justamente analisando este cenário, que se compreende a importância do projeto lacaniano no pós-guerra de retorno a Freud, um movimento de restituir o sentido do que Freud inventou como psicanálise.


Eis a que Lacan se dedicou, intelectual e institucionalmente, após a guerra. Entre 1952 e 1953, abre seu primeiro seminário, dedicado aos Escritos técnicos de Freud, um gesto programático que marca a entrada da sua docência contínua e a centralidade do ensino oral na sua obra. Em 1953, no Congresso de Roma, lê Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise, texto-manifiesto que vincula a prática analítica ao campo da fala e da linguagem, e que precipita divergências com a Sociedade Psicanalítica de Paris, culminando na formação do grupo Lacan-Lagache.

A partir daí, o ensino anual dos Seminários e a publicação dos Escritos, em 1966, consolidam a arquitetura de seu retorno a Freud. Esses eventos estão pontuados na cronologia dos seminários e escritos, e sustentam a tese de que Lacan não funda uma nova psicanálise, mas reabre, na letra freudiana, o campo onde a experiência do inconsciente deve ser pensada — na linguagem, na transferência e no desejo. No Livro I, Os escritos técnicos de Freud (1953–1954), Lacan relê a técnica a partir da primazia do significante e da transferência; no Livro II, O eu na teoria de Freud e na técnica (1954–1955), modifica o estatuto do Eu na direção do tratamento; o Livro III, As psicoses (1955–1956), introduz a foraclusão do Nome-do-Pai como mecanismo fundamental; o Livro IV, A relação de objeto (1956–1957), desloca o objeto para o registro simbólico; o Livro V, As formações do inconsciente (1957–1958), explora os chistes, os lapsos, os atos falhos etc; no Livro VI, O desejo e sua interpretação (1958–1959), desenha seu famoso grafo do desejo; o Livro VII, A ética da psicanálise (1959–1960), articula o desejo e a Coisa (das Ding) para situar a ética do ato analítico.

No Livro VIII, A transferência (1960–1961), Lacan formaliza o analista como sujeito suposto saber; no Livro IX, A identificação (1961–1962), introduz o traço unário e reescreve a identificação no eixo S1/S2; e no Livro X, A angústia (1962–1963), explicita o objeto a como causa do desejo e a angústia como real. O Livro XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1963–1964), rearticula inconsciente, repetição, transferência e pulsão. Na sequência, o Livro XII, Os Problemas cruciais da psicanálise (1964–1965), trabalha tensões entre saber e verdade; o Livro XIII, O objeto da psicanálise (1965–1966), especifica a função do objeto a ao enlace entre ciência, saber e verdade. O Livro XIV, A lógica do fantasma (1966–1967), escreve a estrutura $◇a e pensa o ato sobre o fantasma.      


Além da intensa produção intelectual, o percurso de Lacan foi acompanhado de muitas polêmicas. Em 1963, por pressão da IPA, seu nome foi suprimido da lista de didatas da Sociedade Francesa de Psicanálise, em parte pela técnica das sessões de duração variável. Em 1964, criou a École Freudienne de Paris (EFP), que voltou a provocar debates, sobretudo acerca do dispositivo do passe. 

Em Maio de 68, Paris viveu uma onda de ocupações estudantis, barricadas e confrontos com a polícia que rapidamente transbordaram para uma greve geral - cerca de 10 milhões de trabalhadores paralisaram o país, no maior movimento grevista da história francesa. Foi um levante antiautoritário, cultural e social que reconfigurou a vida intelectual e repercutiu imediatamente nos seus Seminários, e pode ser constatado no Livro XV, O ato psicanalítico (1967–1968), no Livro XVI, De um Outro ao outro (1968–1969), com o lançamento da revista Scilicet, em 1968, e no Livro XVII, O avesso da psicanálise (1969–1970), no qual elaborou acerca dos quatro discursos (do mestre, universitário, histérico e do analista) e o mais-de-gozar (plus-de-jouir), oferecendo uma leitura estrutural do laço social no pós-68.

A partir de 1971, abre-se um ciclo de crítica do semblante, de centralidade da letra e de avanço topológico. O Livro XVIII, De um discurso que não fosse semblante (1971), dialoga com Lituraterra e interroga o que, na enunciação, não se reduz à cena imaginária; o Livro XIX, …ou pire (1971–1972), trabalha o equívoco e a lalíngua, tensionando verdade e saber; o Livro XX, Encore – Mais, ainda (1972–1973), introduz a escrita da sexuação e o não-todo do gozo feminino; o Livro XXI, Os Não-Tolos Erram (1973–1974), revisita a função do Nome-do-Pai; o Livro XXII, R.S.I. (1974–1975), sistematiza os três registros por meio dos nós borromeanos; e o Livro XXIII, O sinthoma (1975–1976), lê Joyce para marcar a passagem do sintoma ao sinthoma como invenção singular de amarração a exemplo de um quarto nó capaz de sustentar o sujeito onde as consistências falham.       

Os últimos anos (1976–1980) radicalizam essa via de escrita. o Livro XXIV, L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976–1977), apresenta o trabalho com a letra e o nó, inventando novas amarrações do falasser; o Livro XXV, O momento de concluir (1977–1978), reexamina o dispositivo do passe e a    política de Escola; o Livro XXVI, A topologia e o tempo (1978–1979), insiste na escrita topológica como via de acesso ao real e ao tempo lógico. Por fim, em 5 de janeiro de 1980, Lacan lança a Carta de dissolução da EFP, considerado um gesto institucional extremo que sinaliza a inseparabilidade, em seu ensino, entre produção conceitual e política de transmissão. 


Esta última década de vida de Lacan foi o período mais polêmico de sua prática clínica. Multiplicaram-se relatos sobre salas de espera lotadas, sessões muito breves e frequência elevada, alimentando críticas ao estilo Lacan. No fim da década, já debilitado, foi alvo de ataques na imprensa, o que motivou cartas públicas de apoio assinadas por profissionais da saúde mental.      

Lacan entrou em declínio físico no fim dos anos 1970. Apresentou alguns problemas neurológicos e, em 1980, foi diagnosticado com câncer de cólon. Foi internado na Clínica Hartmann, em 12 de agosto de 1981, e submetido à cirurgia para retirada de um tumor maligno. Lacan faleceu em 9 de setembro de 1981 e foi sepultado em Guitrancourt. 



*Renata Wirthmann é psicanalista, escritora e professora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Catalão (UFCAT). Possui pós-doutorado em Teoria Psicanalítica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorado em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB), mestrado em Psicologia pela UnB e graduação em psicologia pela PUC-GO.


 
 
 

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