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A clínica do autismo na hipótese da quarta estrutura

Atualizado: 14 de mai. de 2023


INTRODUÇÃO


O Programa de Investigação Psicanalítica do Autismo – PIPA (e rabiola) é pautado na orientação lacaniana do Campo freudiano, cuja maior baliza de pesquisa está na hipótese de que, partindo do proposto por Rosine e Robert Lefort, o autismo é uma quarta estrutura psíquica, além das conhecidas: neurose, psicose e perversão.


Para a Psicanálise de orientação lacaniana, é fundamental toda uma investigação diagnóstica para que se possa permitir uma leitura clara das formas do funcionamento autístico.


No campo da psiquiatria, inicialmente, o autismo era ligado a uma sintomatologia grave da esquizofrenia infantil. Apesar da semelhança entre os sintomas, Autismo e Esquizofrenia distinguiam-se fundamentalmente em relação aos chamados ‘fenômenos elementares’, ‘sintomas positivos’ e ‘sintomas negativos’.


Uma vez que a psiquiatria atual não encontrou formas de explicar uma psicose sem fenômenos elementares, o autismo foi retirado da categoria de patologia psiquiátrica e tomado como um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento e, logo depois, o nomearam como Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa mudança na forma de diagnosticar o autismo e a possibilidade de considerá-lo como um espectro aumentou exponencialmente o número de sujeitos que se enquadram nesse diagnóstico.


Para a psicanálise, no que toca especificamente ao autismo, elementos tais como imutabilidade e solidão autística são constantes e estão presentes em todos os sujeitos pesquisados por Leo Kanner e Hans Asperger, levando-nos a sustentar que há um modo de funcionamento dessa estrutura que é invariável em qualquer ponto do espectro. Isso reforça, além de outras considerações, a hipótese de que o autismo seja uma quarta estrutura psíquica.


A pergunta central da investigação do PIPA (e rabiola) é exatamente: existe uma epidemia de autismo ou uma epidemia de diagnósticos de autismo? Tendemos, atualmente, a responder que ambos. Há uma epidemia de diagnósticos de autismo, pelas razões elencadas acima e pela tendência a associar a estas, padrões fenomenológicos comportamentais e outros elementos que dizem respeito a uma certa leitura da neurologia. Por outro lado, há uma epidemia de autismo. Isso se constata nos consultórios e nas escolas. Ainda não temos como precisar por quê.



AULA - CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA HIPÓTESE DE UMA ESTRUTURA AUTÍSTICA


Confira a aula ministrada pela psicanalista Bartyra Ribeiro de Castro, psicanalista Membro da EBP/AMP, no Instituto ESPE, instituição dedicada a pesquisa e a transmissão da psicanálise. A aula está disponível em nosso canal do Youtube!




A HIPÓTESE DE UMA ESTRUTURA AUTÍSTICA


“O autismo não é mais uma psicose”.[1] É com esta afirmação que Jean-Claude Maleval abre seu texto cuja pergunta-título é: “Por que a hipótese de uma estrutura autística?”. Neste, Maleval sustenta as razões pelas quais o autismo não mais pode ser colocado nosologicamente, entre as psicoses, concordando com a tese de Rosine e Robert Lefort de que se trata de uma quarta estrutura psíquica, juntamente com a neurose, a psicose e a perversão.



De Clérambault a Bleuler


Gaëtan Gatian de Clérambault, psiquiatra francês, contemporâneo de Freud e considerado por Lacan como seu mestre, nos traz o Automatismo Mental como um mecanismo base dos delírios mais comuns, inclusive místicos, de grandeza, de perseguição, de possessão, de erotomania etc.,[2] caracterizado por ecos do pensamento, pensamentos antecipados, contradição sistemática, associação por contraste, diálogos de vozes, dentre outros.[3] Segue dizendo que, a respeito da esquizofrenia, podemos isolar dois tipos de sintomas característicos, de acordo com o que se apresenta fenomenologicamente, nos tratados de psiquiatria:


- Sintomas negativos – alogia (pobreza da fala, fala vazia de conteúdo), embotamento afetivo (diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente), anedonia (inabilidade de experimentar prazer pela interação social) e avolição (perda da iniciativa e da vontade próprias).


- Sintomas positivos – delírios e alucinações, falas desorganizadas e comportamentos bizarros, distorções ou exageros cognitivos.


As alucinações são alterações na percepção, por exemplo, ouvir vozes sem estímulo; e delírios, que são distorções do pensamento – articulação de informações a contextos muitas vezes encadeados de forma absolutamente disjunta da realidade comum. Quanto à fala desorganizada, o que se tem como fenômeno é a ruptura com a linguagem e com a comunicação, refletindo a desordem do pensamento. O comportamento desorganizado compreende a ruptura no controle e no monitoramento da parte motora e do comportamento do paciente.


Eugène Bleuler, psiquiatra suíço, atribui à esquizofrenia, quatro As:


- Associações – dissociações nos processos do pensamento,

- Ambivalência,

- Autismo, e

- Avolição


E acrescenta a esta sintomatologia, a fragmentação do pensamento e da personalidade.

Para Bleuler, o aspecto central da esquizofrenia são os sintomas negativos. É Bleuler quem cunha o termo AUTISMO, partindo do termo AUTOEROTISMO, de Freud. Atualmente, este termo AUTISMO – excluindo o componente EROS -, nos faz pensar se se aplica realmente aos autistas, pois sem EROS (energia de vida) os autistas sequer falariam ou fariam, minimamente, alguma inserção no mundo.


Saussure, Jakobson, Lévi-Strauss e Lacan


Para tratarmos de estrutura, um aspecto importante a considerarmos é o estruturalismo de Lacan,[4] que comparece do seu primeiro ensino ao último, sofrendo algumas modificações no percurso. Sabemos que Lacan foi fortemente influenciado por três estruturalistas: Ferdinand de Saussure, Roman Jakobson e Claude Lévi-Strauss. Quando escreve Os complexos familiares na formação do indivíduo, em 1938, ele afirma que falar de complexo significa falar de estrutura: “A família não é dominada por comportamentos biológicos, mas estruturada por complexos simbólicos”.[5] Com isso, Lacan coloca que há uma dependência intrínseca em relação aos componentes da estrutura familiar, na constituição dos laços, como uma sujeição em relação à organização significante da fala – o que se conhece como transmissão transgeracional.


Os estruturalistas partem do estudo da linguística – língua e linguagem, e excluem a subjetividade. Nesta linha de abordagem, são considerados elementos tais como emissor-receptor, som-sentido, indivíduo-sociedade, língua-fala, paradigma-sistema, sincronia-diacronia.


No entanto, o conceito de estrutura para Lacan é diferente do que se apresenta comumente para os estruturalistas. Segundo Lacan, em seu primeiro ensino, o inconsciente é estruturado como uma linguagem, tomando como base os textos freudianos: A interpretação dos sonhos, de 1900, Psicopatologia da vida cotidiana, de 1901, e Os Chistes e sua relação com o inconsciente, de 1905.


Lacan partirá, então, destes autores estruturalistas e relacionará a fala e seus efeitos sobre o receptor que a escuta a partir de sua história. Isto é um preceito totalmente freudiano que, desde os primórdios do pensamento psicanalítico, já afirmava que a realidade é psíquica, o que quer dizer, que cada um toma a realidade a partir de seu psiquismo. Temos aqui um Lacan absolutamente freudiano.


No entanto, se por um lado, Lacan toma Saussure com sua estrutura da linguagem, ele também recorre a Hegel, via Kojève, para trabalhar a estrutura da palavra. Lacan coloca que o sujeito está comprometido em sua relação com a linguagem (S1 – S2, sujeito, saber e objeto) não havendo simetria entre o locutor e o auditor. O auditor está numa posição tal que será ele quem dará o sentido ao que o locutor quer dizer, a partir de sua própria realidade.


Lacan diverge dos estruturalistas em alguns pontos fundamentais. A concepção de sujeito é o mais importante, pois, para os estruturalistas, a estrutura é incompatível com o sujeito. Para Lacan, a psicanálise não pode prescindir do sujeito. Para a psicanálise, a relação do sujeito com a linguagem define muitas coisas, sobretudo seu gozo, sua fantasia, sua sexualidade e seu desejo.


Para Lacan, a entrada do sujeito na estrutura de linguagem é marcada pela falta de um significante que diga tudo, que encerre o campo dos significantes. A esta falta, Lacan nomeia S(Ⱥ) – significante da falta no campo do Outro. Esta consideração de Lacan é importante, pois coloca a linguagem como exterior e pré-existente ao sujeito, que precisa incorporá-la.


Lacan estabelece três estruturas clínicas – neurose, psicose e perversão, articuladas a três mecanismos distintos, respectivamente – recalque, forclusão e renegação. Estas estruturas correspondem a sintomas e manifestações clínicas diferentes – sintomas e formações do inconsciente, fenômenos elementares e atos perversos (também respectivamente). Assim sendo, segundo Lacan, não há passagem entre uma estrutura e outra. Uma neurose não passa a psicose, uma psicose não evolui para uma neurose, uma perversão não passa à psicose. Isto determina, inclusive, muitos elementos da conduta clínica. Em relação às três, há algo que diz respeito a cada sujeito: a insondável decisão do ser. ‘Insondável’ quer dizer, impossível de acessar, de se chegar a compreender completamente, impossível de se chegar até onde foi tomada uma decisão do ser. Essa insondável decisão fala exatamente do que não conseguimos compreender em nós mesmos, mas que nos define como somos. Nessa insondável decisão está, sobretudo, a nossa forma de estar no mundo. Para Lacan, há uma diferença entre o sujeito e o ser. O ser é o que, do sujeito, pode ser representado, isto é, o S1. E o sujeito é o que escapa à representação, sendo somente efeito de articulação significante, que sempre deixa um resto. Assim, o sujeito é consequência, efeito, não causa.


São posições subjetivas estabelecidas pela relação com os efeitos da castração, isto é, do que cada um fez com a falta que lhe constitui enquanto sujeito. Esta questão da falta estruturante, Lacan traz desde Freud, quando este denota que há representação de coisa e representação de palavra, no inconsciente, que a segunda (representação de palavra) nunca consegue cobrir a primeira (representação de coisa). Isso quer dizer que sempre haverá um resto não representável, entre coisa e palavra, para o sujeito do inconsciente; que sempre teremos que falar melhor, algo mais, sobre o que não se fecha entre coisa e palavra. Isto denota um impossível com o qual todo sujeito do inconsciente que se haver. Um resto que Lacan conceituará como objeto a, a partir do Seminário 11, quando ele falará de alienação e de separação, e em sua versão de mais de gozo, quando, no Seminário 16, ele fará uma relação entre objeto a e mais valia, inspirado na tese de Marx sobre o capitalismo, por exemplo. Mais tarde, no Seminário 17, ele colocará o objeto a como causa de desejo, especialmente como agente do discurso do analista.


É importante lembrarmos que a linguagem é considerada, por Lacan, como um órgão externo ao corpo humano e que é preciso incorporá-la, porque vem do Outro, e é o processo de incorporação da linguagem o que podemos chamar de estruturação do psiquismo.


“O inconsciente é estruturado como uma linguagem” – esta é a tese que marca o primeiro e o segundo ensinos de Lacan, que vão do Seminário 1 (1953) ao Seminário 20 (1972). Na última aula do Seminário 20, intitulado Mais, ainda, Lacan apresenta um elemento novo que passaremos a considerar: alíngua. Lalangue, como ele chama – um neologismo que mistura lalação e língua –, é considerado o primeiro contato humano com o eco do fato de que há um dizer.[6] É um enxame de sonoridades, uma substância sonora, a partir da qual, a relação do humano com a linguagem se estabelecerá. Cada um fará algo com este enxame que vem do mundo que o cerca. Deste enxame, alíngua, Lacan desdobrará em letra e em linguagem, como tempos lógicos da entrada do humano na linguagem. A partir do conceito de alíngua, ele coloca três formas de apresentação de S1: - o enxame (numa relação homofônica, no francês, com S1 – essain), como muitos S1 soltos; - como letra, que ele fala que será destacada a partir de um acúmulo de gozo sobre algum S1 que tende a se destacar (ou não, dependendo da estrutura subjetiva), em direção a uma significação – que ele toma com a linguagem, propriamente dita, isto é, como a articulação significante, entre o S1 – letra – e o S2 – campo das significações –. No último ensino de Lacan, o que ele chamava de sujeito passa, então, a ser falasser: o ser falante, tocado pelo enxame de S1, que dará destino aos efeitos de quando a fala toca o ser.


É o que se estabelece entre linguagem e corpo o que promove uma localização do gozo generalizado que, a princípio, toma o organismo humano. Antes da chegada da linguagem sob a forma de alíngua, o organismo humano é um puro gozo. Alíngua, o enxame de sonoridades que toca o humano, é, então, o primeiro momento de aquisição da linguagem que podemos considerar. É o princípio de tudo, em termos de estrutura psíquica.


O estruturalismo de Lacan é, portanto, antinômico, descompletado e inclui o impossível, justamente por ter, no centro de seu pensamento, o objeto a. Mesmo no último ensino, Lacan mantém-se estruturalista, embora acrescente a singularidade de cada sujeito ao fixo de cada estrutura psíquica, conjugando estes dois elementos – estrutura e singularidade.


Lacan e o autismo


Para Lacan, que falou muito pouco sobre o autismo em seu ensino, há uma detenção da linguagem no autismo. Ele usa, em diferentes momentos ao longo de 20 anos, este mesmo termo, com leves variações, como congelamento da linguagem, por exemplo. No entanto, esta definição nos é de importância crucial para pensarmos teórica e clinicamente o autismo.


Vale sempre lembrar que um diagnóstico se faz sob transferência, os sintomas e os fenômenos não são suficientes para se diagnosticar a relação estrutural do sujeito com a linguagem. Temos que saber que tipo de laço cada sujeito estabelece com seu Outro. E isso é, exatamente, o que determina uma estrutura.


Esta afirmação de Lacan sobre a detenção da linguagem, no autismo, está presente, portanto, desde o seu primeiro ensino (já no Seminário 1 – 1953) até a Conferência em Genebra sobre o sintoma (1975). A formulação de que o inconsciente seja estruturado como uma linguagem não nos permite avançar na compreensão do funcionamento autístico. Esta formulação exige que tomemos o autista enquanto sujeito, representado entre dois significantes, deixando um resto de operação, como já vimos. E isto não se apresenta no autismo. Não podemos considerar, strictu sensu lacaniano, que o autista seja um sujeito. Somente depois do último ensino de Lacan, com os conceitos de alíngua, de gozo e de a letra (conforme encontra-se no Seminário 23) é que podemos encontrar um termo que melhor designa o autista: um ser falante, e avançar com os estudos a respeito da estrutura autística e a forma de atuar clinicamente com os autistas, em psicanálise.


Jean-Claude Maleval e a hipótese da estrutura autística


A partir desta pontuação precisa, sobre o congelamento da linguagem no autismo, abriu-se um debate dentro da psicanálise de orientação lacaniana, sobre se o autismo é, ou não, uma psicose. Diferentes vertentes se apresentaram: - o autismo seria uma quarta estrutura psíquica, diferente da neurose, da psicose e da perversão; - ou uma a-estrutura, como alguns consideram as afirmações dos Lefort; - uma psicose a mais: ou um tipo clínico dentro das psicoses: autismo, esquizofrenia, paranoia e psicose maníaco-depressiva; - ou um caso grave ou extremo de esquizofrenia.[7]


Foi a esquizofrenia, conforme compreendida por Bleuler, que serviu de referência a Leo Kanner e a Hans Asperger para isolarem a síndrome autística. Autismo e esquizofrenia, de início, se aproximam bastante, sobretudo quanto aos sintomas negativos, mas, os positivos (delírios e alucinações) pertencem somente à esquizofrenia. O delírio envolve o simbólico e o imaginário do corpo, e é algo vindo do exterior, que pode localizar um perseguidor e tem uma certa lógica evolutiva. Costuma apresentar uma convicção megalomaníaca. As alucinações verbais são raras no autismo. Mesmo quando parecem acontecer, há que se questionar se não se trata de ecos do gozo vocal.


A ironia é um traço da esquizofrenia que não se encontra, por exemplo, no autismo. A ironia testemunha a rejeição ao Outro, da psicose. Por outro lado, temos a imutabilidade, que não se apresenta na esquizofrenia. Segundo Maleval, a imutabilidade busca um Outro de síntese – uma das formas através das quais o autista busca uma inserção no mundo.


Embora, na infância, a sintomatologia do autismo e da esquizofrenia se sobreponham em parte; a imutabilidade e o isolamento autístico aparecem como características fundamentais do autismo quanto ao diagnóstico diferencial para com a esquizofrenia. A imutabilidade surge como uma tentativa de controlar o mundo externo em seu aspecto caótico. Por esta razão, os autistas se agarram a regras absolutas. O isolamento os protege contra a angústia que os avassala. Outro mecanismo muito utilizado para conter a angústia no autismo são os esforços didáticos através de uma lógica argumentativa fechada. Tudo muito previsível.


Embora Kanner seja reconhecido pela genialidade das descrições de suas observações, Maleval ressalta que ele minimizou os distúrbios de linguagem presentes nos autistas por ele observados, ao passo que Asperger os tomou como um sintoma fundamental. No autismo, a linguagem comparece completamente separada do corpo. O autista não associa uma ação exterior como exercendo influência sobre o seu corpo. Há uma recusa da linguagem ligada ao sentido. No autismo, a linguagem é usada através do signo – o que representa algo para alguém –, o que não permite a variação de sentido, que somente visa a comunicação e o diálogo, se estiverem separados dos afetos. É o que chamamos de primado do signo. É a busca da codificação do mundo e o que faz, ao mesmo tempo, grande obstáculo à aprendizagem relacionada aos afetos. No autismo, portanto, não se encontram metáfora ou metonímia, pois, sob o primado do signo, o vazio de sentido necessário para que estas figuras de linguagem compareçam, não existe. O autista se defende do equívoco e do mal-entendido, próprios à articulação dos significantes.


Uma das consequências do primado do signo, segundo Maleval neste artigo, é o que Temple Grandin descreveu como “pensar em imagens”. Este recurso fala “do ideal do código autístico”,[8] formado por representações idênticas. É a forma mais completa do signo icônico – “signos justificados [...] que representam esquematicamente a entidade, a pessoa, o acontecimento ou o atributo designados”.[9]


Outro elemento de grande importância no diferencial diagnóstico entre autismo e esquizofrenia, elencado neste texto de Maleval é que, no autismo, não tem desencadeamento, ao passo que, no caso das psicoses, sim – geralmente, na adolescência, dado ao efeito da pulsão sexual sobre o corpo; embora haja desencadeamentos psicóticos na tenra infância. Os autistas se isolam do mundo externo desde a primeira infância e o que pode parecer um desencadeamento – a suspensão da fala, em alguns casos –, mostra-se, muitas vezes, como uma resposta a uma situação de grande angústia, mas que, mediante observação, a criança já apresentava outras características do autismo, antes desta suspensão. Muitos autistas parecem não responder a quase nada que venha do mundo exterior, desde o começo de suas vidas, mantendo um modo permanente de funcionamento.


Para Lacan, não há sujeito fora da linguagem. No entanto, é próprio do autismo a recusa de ceder ao Outro os objetos pulsionais, sobretudo o olhar e a voz. “As consequências da retenção dos objetos pulsionais são frequentemente manifestas pelo comportamento do autista: estrabismo, encoprese ou retenção de fezes, anorexia ou bulimia, urros inextinguíveis ou ausência de apelo etc”.[10] A sintomatologia do autismo, quanto à retenção da voz, apresenta distúrbios de linguagem – mais radicalmente o mutismo, ou fenômeno “verboso” – muito comum em alguns autistas, a ‘verborreia’, não permite a comunicação, nem o diálogo. A língua verbosa é uma língua do autista para si mesmo, em que se encontram as emoções, o solilóquio e a ecolalia. Outras vezes, falam em tom monocórdico, sem ceder da voz, sem mostrar qualquer afetação. Também há o recurso à língua factual – uma língua intelectual, usada para que ele compreenda o mundo. A língua factual não é feita para conversar, mas para que ele comunique sobre o seu interesse específico. Ele não espera a resposta do outro. É uma ponte para ir ao mundo e ordená-lo. Nessa língua factual, não há emoção. Não há ligação entre emoção e intelecto.


No entanto, Lacan é claro quando coloca que o autista, quando tampona as suas orelhas, se protege do verbo, o que quer dizer que ele considera que o autista já esteja no pós-verbal. Em alguns momentos de muita angústia, surgem as frases espontâneas, perfeitamente construídas, que escapam de sujeitos considerados mudos ou que tenham suspendido a fala por anos. Este é o caso do “justyourvoice”, de Owen Suskind, ou do “me dá minha bola”, de Birger Sellin.


Owen Suskind, que suspendeu a fala aos três anos, pronuncia “justyourvoice” diante da mãe, aos cinco, para dizer sobre algo que havia capturado do filme A pequena sereia, da Disney, quando a bruxa diz a Ariel que, para se tornar humana, é preciso ceder a voz.


Birger Sellin, que nunca havia pronunciado qualquer palavra; diante de uma provocação de seu pai, retendo a bola durante uma brincadeira, diz claramente: - me dá minha bola! Depois deste episódio, Birger voltou ao seu mutismo, como permanece até os dias de hoje.



Avolição/volição


Um dos As, de Beuler, a avolição não é percebida no autismo da mesma forma que na esquizofrenia. Na esquizofrenia, a perda da vontade de viver implica num isolamento social decidido, numa indiferença generalizada e num desinteresse radical em relação aos objetos do mundo. Os autistas, ressalta Maleval, ao contrário, apresentam volição, isto é, guardam grande interesse por determinados objetos e assuntos, contanto que estes não interfiram em seu isolamento. São estes objetos e interesses específicos que, juntamente com os duplos, permitem aos autistas, alguma forma de laço social.



A evolução do autismo e a questão do espectro


“Autismo evolui em direção ao autismo”.[11] Há muita controvérsia quanto à questão da evolução no autismo. Há teóricos que sustentam que o autismo evolui para a psicose. Inclusive o casal Lefort chegou a pensar desta forma por um tempo, quando de seus estudos sobre o menino lobo. Anos mais tarde, Rosine e Robert Lefort, em seu último livro, A distinção do autismo, foram categóricos ao propor o autismo como uma quarta estrutura psíquica.


No entanto, o que se constata é que o autismo pode evoluir num espectro. Maleval, em seu livro, O autista e sua voz, nos diz que o fator primordial para o avanço no espectro é a capacidade de o autista ceder de sua imutabilidade. Isto é, quanto mais o autista puder suportar o imprevisto, o caos externo, o surgimento do real, mais ele poderá mover-se no espectro. Mas isto não é, absolutamente, uma regra.


Como dito acima, a forma de Lacan considerar a estrutura em seu último ensino, nos permite concordar com os neurologistas, quanto à apresentação do autismo como espectro, pois à fixidez da estrutura psíquica, soma-se a singularidade – o que cada um fará com sua subjetividade.


O que sustenta a hipótese de uma estrutura autística é, sobretudo, o fato de que, em qualquer ponto do espectro, quer dizer, dos autistas considerados kannerianos, aos Aspergers, aos savants, encontram-se os elementos invariáveis: o isolamento autístico e a imutabilidade; assim como a não cessão dos objetos pulsionais para a troca social, e o retorno do gozo sobre a borda autística, o que pode lhes permitir ir ao mundo – como pseudópodes –, como fronteiras para se aventurarem ao laço social. Há três elementos que podem receber investimento libidinal por parte dos autistas, que são os objetos autísticos, os duplos e asilhas de competência ou interesses específicos, e que dizem do retorno do gozo sobre a borda.


O retorno do gozo sobre a borda é uma tese defendida por Eric Laurent, psicanalista francês, que sustenta que o elemento fundamental no autismo, que faz com que haja uma detenção da fala, conforme assinalou Lacan, é a forclusão do furo. Isto quer dizer que, entre alíngua (enxame de substância sonora, solta, S1) e a letra (extração de um S1 do todo do enxame, efetuando um furo), algo não acontece, fazendo com que não aconteça, também, o redobramento da borda, pois, se não houve borda não haverá eco no corpo.


Assim sendo, objetos autísticos, duplos, ilhas de competência ou interesses específicos são construções, invenções dos autistas que permitem um retorno do gozo não localizado sobre uma borda a ser formada – uma neo borda.


O gozo, no autismo, por não estar localizado pelo efeito do destacamento de a letra e pela consequente não incorporação da linguagem, gera distúrbios de identidade, do curso do pensamento e fenômenos de deslocalização. Estes elementos são considerados “obstáculos à inscrição do sujeito no campo do Outro”.[12]



As autobiografias e a importância dos escritos dos autistas


Maleval ressalta as características dos escritos dos autistas que revelam seu mundo interior e nos permitem compreender melhor seu funcionamento. Os escritos autobiográficos são como uma tentativa de saírem do anonimato e de se fazerem conhecer em sua forma de ser. Nestes, é comum aparecerem os traços de grande inteligência e capacidade de autodidatismo. É muito frequente que os autistas escrevam para dizerem de si e em nome de outros autistas, em busca de um reconhecimento à sua especificidade de ser, frente ao viver.


Temos, por exemplo, Jim Sinclair, que nos diz: “Há uma criança ali”; “o autismo não é qualquer coisa que uma pessoa tem, ou uma ‘concha’ dentro da qual uma pessoa se fecha. Não há criança normal atrás do autismo. O autismo é uma forma de ser. Ele é invasivo, ocupa toda a experiência, toda sensação, percepção, pensamento, emoção, todo aspecto da vida. Não é possível de separar o autismo da pessoa... e, se isto fosse possível, a pessoa que restaria não seria a mesma pessoa que aquela do começo” [13]; temos, também, Temple Grandin que é clara ao dizer: “Se eu pudesse, num estalar de dedos, deixar de ser autista, não o faria. Porque eu jamais seria eu mesma. Meu autismo faz parte integrante do que eu sou”.[14]


A escrita dos psicóticos, por outro lado, é marcada pela característica de ser uma escrita baseada no delírio, como Daniel-Paul Schreber nos ensina em Memórias de um doente dos nervos.



A atualidade da investigação do autismo sob a hipótese de uma quarta estrutura


Há algumas teses e hipóteses que nos servem de base de investigação a respeito do autismo como uma quarta estrutura subjetiva. Aqui, somente à guisa de suscitar a curiosidade e o interesse pelos estudos, neste imenso campo de não saber que é o autismo, trago:


- Lacan – não há sujeito fora da linguagem e há uma detenção da linguagem no autismo;


- Rosine e Robert Lefort – o autismo é uma quarta estrutura psíquica distinta das três outras. Isto baseia-se, principalmente na não articulação significante S1-S2, pela falta do significante S1; pelo impulso à autodestruição; por não haver alienação no autismo; e pelo estabelecimento de duplos, como uma forma de defesa contra a invasão do desejo do Outro. Alguns estudiosos leem esta proposição como se se tratasse de uma a-estrutura.


- Jean-Claude Maleval (1) – sustenta a tese dos Lefort, embora discorde inicialmente da falta de S1. Para ele, a questão principal está na não articulação S1-S2, o que estabelece o primado do signo, a imutabilidade e o isolamento autístico. Para ele, há alienação congelada no autismo, embora o sujeito autista rechace a sua própria constituição pela via da alienação à cadeia significante. Maleval também ressalta a constituição dos duplos, o apego aos objetos autísticos e a construção de uma ilha de competência como formas de construir uma borda autística que permite algo de um laço social, porque localiza a libido ali. Maleval ressalta a busca da construção de um Outro de síntese, uma vez que, no autismo, o Outro é real.


- Éric Laurent – há uma forclusão do furo no autismo, isto é, em um tempo lógico anterior à forclusão do Nome-do-Pai, anterior à entrada na linguagem e, mesmo, anterior à inscrição de uma letra de gozo. Por isso, o gozo retorna sobre a borda. Segundo a tese de Laurent, as formas de retorno do gozo sobre a borda (que não foi constituída, visto que não houve destacamento de a letra) constituem uma neo borda através dos duplos, dos objetos e dos interesses específicos ou afinidades;


- Jean-Claude Maleval (2) – Se Lacan nos fala de uma detenção da linguagem no autismo, de um congelamento, alguns acontecimentos na vida do sujeito ou a intervenção analítica podem promover um descongelamento e viabilizar algo de uma mudança subjetiva para o autista;


- Jacques-Alain Miller – há uma forclusão de S1, no autismo. Miller retoma Rosine e Robert Lefort para fazer esta afirmação que ainda temos um imenso caminho até que possamos compreender o que ele está nos trazendo com esta proposição; e


- Patrício Álvarez Bayón – desdobra as teses de Lacan, de Rosine e Robert Lefort, de Eric Laurent, de Maleval e de Miller como ninguém o fez até agora – para ele, o autismo encontra-se entre alíngua e a letra. Isto quer dizer que, dissecando a estruturação subjetiva no nível mais primitivo de aquisição da linguagem, no nível de alíngua, antes mesmo do destacamento de uma letra de gozo, ali se encontra o autismo. Para Patrício Álvarez Bayón, o autista pode chegar a conseguir inscrever uma letra, mas ao custo de ser inequívoca, isto é, sempre a mesma.[15] Ele parte da tese de Laurent a respeito da forclusão do furo para justificar esta estruturação que estabelece a diferença entre três tipos de S1 (alíngua, a letra e a linguagem) trazidos por Lacan em seu último ensino, correspondendo a três tempos lógicos bem-marcados, do processo de aquisição da linguagem: o de alíngua – choque da linguagem no corpo –, do destacamento de a letra do enxame de S1 que caracteriza alíngua, e da consequente, ou não, articulação S1- S2. Segundo as articulações de Patrício Álvarez, o autista é um falasser que habita alíngua e a letra, mas não habita a linguagem.[16] Esta é uma afirmação que se contrapõe ao que Lacan nos afirma quando nos diz que não há sujeito fora da linguagem.



[1] MALEVAL, J.-C. Por que a hipótese de uma estrutura autística? Opção lacaniana online. Ano 6, n. 18, p. 1-40, 2015. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_18/Por_que_a_hipotese_de_uma_estrutura_autistica.pdf>. Acesso em 25 ago. 2022.


[2] CLÉRAMBAULT, G.G. Automatisme mental et scission du moi : Présentation de malade. p.37.


[3] Ibid. p. 38.


[4] Baseado no texto de SALADA, Glória e MARTINHO, Maria Helena. A estrutura em psicanálise: uma enunciação desde Freud. Ágora, v. XIV, n. 2, p. 243-258, 2011. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/agora/a/qLY9WdTMFS8XjCzCk3q5MxQ/?format=pdf&lang=pt>. Acesso em 25 ago. 2022.


[5] LACAN, J. Os complexos familiares na formação do indivíduo. In: ______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.


[6] Conceito de pulsão em LACAN, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.


[7] BAYÓN, P. A. El autismo, entre lalíngua e y la letra. Buenos Aires: Grama, 2020. p. 100.


[8] MALEVAL, J.-C. Por que a hipótese de uma estrutura autística? Opção lacaniana online. Ano 6, n. 18, p. 1-40, 2015. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_18/Por_que_a_hipotese_de_uma_estrutura_autistica.pdf>. Acesso em 25 ago. 2022.


[9] Idem.


[10] Idem.


[11] Idem.


[12] Idem.


[13] SINCLAIR, J. “Ne nous pleurez pas”. Austim Network International, Our Voice, v. 1, n. 3, 1993.


[14] GRANDIN, T. Op. Cit., p. 17.


[15] BAYÓN, P. A. El autismo, entre lalíngua e y la letra. Buenos Aires: Grama, 2020. p. 106.


[16] Idem.

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