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De Freud a Lacan e Flesler: o que é uma criança para a psicanálise?

Texto escrito pelo psicanalista Josias Santos Fontoura



Resumo: A partir da interrogação sobre o que é uma criança para a psicanálise, este artigo propõe um breve percurso teórico pelas considerações de Freud sobre esse tema, passando pelas considerações de Lacan, que dão formalização lógica aos conceitos freudianos, tendo como ponto de chegada a teoria de Flesler. A autora localiza proposições na teoria freudiana que considera problemáticas e, apropriando-se da teoria lacaniana, propõe sua própria formalização lógica para a psicanálise de crianças, criando um novo conceito que auxilia na elucidação de divergências teóricas e pode trazer luz a novas questões de nossos tempos. Assim, a revisão dos dois primeiros autores e o cruzamento de suas considerações com a proposta flesleriana apresenta avanços relevantes para a teoria psicanalítica.


Palavras-chave: Psicanálise; Freud; Lacan; Flesler; Criança.



Em conferência recente no Brasil, por ocasião do lançamento de seu segundo livro em português, A criança em análise e as intervenções do analista, Alba Flesler (2021) declarou que atribui a receptividade de sua obra, cujos livros – tanto na Argentina, quanto no Brasil – rapidamente se esgotam assim que publicados, a dois aspectos: o primeiro, o mérito de suas formulações teóricas com base em mais de 30 anos de experiência clínica; o segundo e mais importante, a necessidade de formalizações teóricas que ajudem a trazer um caráter lógico para a clínica em nossos tempos. Essa autora coloca em evidência o problema da psicanálise de crianças, a saber, um problema de inscrição simbólica para essa prática na teoria psicanalítica, tentando trazer luz a esse campo com perguntas que produzam outros encaminhamentos.


A interrogação que o título deste texto carrega é, ao mesmo tempo, ponto de partida e efeito de deslocamento para a teoria de Flesler, que a situa justamente no centro das polêmicas que a clínica com crianças herda na história da psicanálise. A questão de ser ou não ser possível analisar uma criança como se analisa um adulto é um exemplo; e, a partir dessa questão, diversas outras se sobrepõem, situando as condições ideais para uma análise e as orientações de sua prática para os analistas.


Ao basear-se no pressuposto de que a criança não é objeto da psicanálise, como também o adulto não o é, surgem, para essa autora, outras perguntas, que parecem mais possíveis de serem delimitadas: então, o que é uma criança para a psicanálise? E mais, o que é uma criança para um psicanalista?


Flesler faz questão de observar esse problema em sua experiência clínica e investiga seus desdobramentos na teoria psicanalítica desde Freud, podendo aí localizar a transmissão de algumas formulações que sustentam dúvida, ambiguidade e falta de clareza na clínica com crianças até os dias de hoje. Nesse percurso, apropria-se da proposta de formalização lógica de Lacan para aplicá-la a uma psicanálise de crianças que contenha especificidades, mas não uma especialidade. Assim, Flesler se pergunta sobre a estrutura real que constitui a criança, desviando da consideração mais comum, que a situa em relação ao adulto ou às condições do adulto. Assim, questionando-se sobre o real da estrutura, chega a respostas que são limites possíveis para a investigação do que, inicialmente, era um impossível na clínica: a criança.


A relevância em abordar a teoria flesleriana se justifica por duas razões: a primeira, porque ela fornece uma formalização lógica para a clínica psicanalítica com crianças, até então inédita em certos aspectos. A segunda, porque seu método de investigação voltado ao campo da clínica com crianças apresenta parâmetros para investigações de outras questões na psicanálise, pois um dos fundamentos de sua proposta diz respeito a revisar as perguntas que vêm sendo feitas sem apresentar respostas possíveis, no intuito de que se construam interrogações sobre problemas reais, avançando além dos problemas imaginários.


A seguir, faremos um percurso por essas questões que circunscrevem a psicanálise de crianças desde Freud, passando por Lacan e introduzindo a proposta de Flesler, que se utiliza de conceitos centrais na teoria lacaniana para apresentar seu conceito-eixo: os tempos do sujeito (FLESLER, 2012).



1. Um problema de inscrição simbólica

Ao longo de toda sua obra, Freud indica como base de suas formulações teóricas a experiência clínica, ou seja, a experiência como fundamento da teoria, sendo que, em diversos momentos, ele atualizou e reconsiderou seus conceitos, inclusive incitando os leitores e estudantes da área a darem o mesmo tom a suas práticas. No prefácio à segunda edição de Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, por exemplo, Freud (2016) afirma ser seu firme desejo que esse texto envelhecesse rapidamente, pela aceitação geral daquilo que trouxe de novo e pela substituição de suas imperfeições por teses mais corretas, trecho que representa o tom da psicanálise desde seus textos inaugurais.


Ora, sendo Freud o marco inicial da psicanálise, seu estilo de investigação teórica e o lugar que dá à criança em sua obra não é sem consequências para os desdobramentos que vieram a seguir. O texto freudiano é o lugar simbólico de onde parte a teoria psicanalítica. Nesse sentido, Flesler presentifica a herança de estilo, considerando a experiência clínica como indissociável da teoria, estilo esse que a faz abrir em sua obra caminhos distintos daqueles tomados pelo pai da psicanálise, pois sua experiência abre outro lugar para a criança na teoria psicanalítica. Tal atitude frente à prática com crianças não é nova na história da psicanálise, mas, em Flesler, é mais radical do que naqueles que vieram logo depois de Freud, como Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott, Ferenczi, entre outros. A seguir, veremos que essa diferença tem a ver com o apontamento de condições ideais para que se realize uma análise e como estão situadas teoricamente as possibilidades de exercício parental em relação à criança.


Uma referência importante que ilustra o lugar da criança na psicanálise, em Freud (2015), é o texto Análise da fobia de um garoto de cinco anos, de 1909, conhecido como o caso do pequeno Hans. Freud introduz esse texto dizendo não ter conduzido o tratamento, mas que, nesse caso, a autoridade do pai junto à (sua) autoridade de médico foi o que permitiu um desenrolar favorável para o pequeno Hans, em condições em que o método psicanalítico normalmente não se prestaria, acrescentando ainda que, se não fosse a habilidade e conhecimentos desse pai, as dificuldades técnicas de uma psicanálise em idade tão tenra teriam sido insuperáveis.


Em outro texto importante, Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina, de 1920, ao tratar o caso de uma jovem homossexual, Freud (2011) expressou suas restrições às possibilidades de tratamento com pacientes que fossem trazidos pelos pais, insinuando ser possível tratá-los, de acordo com a demanda dos pais, mas não sem que as questões retornassem e gerassem novo incômodo, o que se daria de forma diferente em caso de virem por seu próprio desejo.


Em inúmeros outros textos, a criança é citada para suportar formulações teóricas que dizem respeito a conceitos diversos, como o texto Batem numa criança, de 1919, em que Freud (2010b) explora a fantasia do adulto sobre a criança na relação com as neuroses e perversões; o texto Introdução ao narcisismo, de 1914 (FREUD, 2010c), em que cunha sua conhecida expressão “sua Majestade, o bebê”, investigando os efeitos do investimento e desinvestimento amoroso; e o Além do princípio do prazer, de 1920 (FREUD, 2010a), em que desenvolve o conceito de pulsão de morte e, antes, faz um relato sobre a observação de seu neto operando um jogo de presença e ausência na relação com a mãe. São textos em que Freud menciona a criança enquanto se ocupa de investigações sobre a etiologia da neurose e suas manifestações em pacientes adultos.


Assim, o que vai decantando de uma leitura da teoria freudiana é que a psicanálise parecia não ser recomendada para o tratamento de crianças e que Freud se dedicava ao tratamento de adultos, apontando restrições no uso da técnica com os pacientes cujas condições não fossem as usuais. Além disso, inspirado na tragédia grega Édipo (SÓFOCLES, 2018), Freud formulou o chamado complexo de Édipo, uma estrutura que compreende a triangulação entre criança, mãe e pai, processo que resultaria em uma escolha de neurose ou algum tipo de estruturação psíquica mais consolidada para a criança. Esse modelo segue sendo utilizado como base teórica até hoje para situar a constituição psíquica em uma criança.


Anna Freud viria a trabalhar com crianças logo em seguida e a construir suas próprias formulações a respeito, fazendo, por exemplo, uma distinção entre o adulto “maduro e independente” e a criança “imatura e dependente”, além da proposição de que uma criança não seria capaz de estabelecer uma neurose de transferência como um adulto em análise. Já Melanie Klein, dissidente dessa postura, afirmaria justamente o contrário, que a criança poderia fazer neurose de transferência, contanto que se utilizassem alguns critérios semelhantes aos do trabalho com os adultos, interpretando o brincar da criança como se interpretaria o sonhar do adulto, por exemplo.


A esses se seguiram teóricos da psicanálise que foram abrindo o campo da clínica para as questões ligadas à prática com crianças, como Donald Winnicott (1991), no ano de 1945, que desenvolveu conceitos como holding e a ideia de “mãe suficientemente boa”; e Sándor Ferenczi, que propunha modificações da técnica e da posição de saber do analista, em textos como A elasticidade da técnica, de 1919 (FERENCZI, 1992a) e A análise das crianças com os adultos, de 1931 (FERENCZI, 1992b).


Essa trajetória demonstra que os psicanalistas pós-freudianos passaram a receber a criança em análise, colocando esse campo clínico em trabalho. No entanto, o que podemos apontar como um problema de inscrição simbólica no campo da psicanálise de crianças é o não lugar que Freud transmite a essa prática, quando deixa para outro (sua filha) a tarefa de propô-lo. Deixando, assim, aos analistas de crianças o desafio de constituir esse campo de trabalho, tendo daí se perpetuado dificuldades que são filhas da tentativa de aplicar a técnica freudiana, criada para atender ao adulto neurótico, na psicanálise de crianças. Esse desdobramento fez insistir uma repetição desde os tempos de Freud: o lugar da criança como secundário ao lugar do adulto e o modelo de parentalidade organizado de forma a privilegiar o que conhecemos como função materna e função paterna.


Flesler produz um deslocamento diante de tais dificuldades quando propõe que algumas perguntas que estiveram sendo feitas sobre a análise de crianças estão equivocadas, pois não se trata de aplicar a técnica criada por Freud no trabalho com as crianças – isso será sempre da ordem do impossível, deixando a questão a trabalhar apenas num nível imaginário. É preciso se perguntar: o que é uma criança para a psicanálise? E, fundamentando-se nessa nova pergunta, simbolizar um novo lugar para a criança no campo teórico da psicanálise. Para isso, a formalização lógica que Lacan propõe, ao reler Freud, serve de sustentação para as formulações de Flesler.



2. A criança em análise: uma formalização lógica


Lacan ficou conhecido por ser um teórico que fez um retorno a Freud e deu um estatuto lógico à psicanálise, procurando suporte em outros campos de conhecimento, como a filosofia, a linguística, a matemática e a topologia. Preocupado com a formação de analistas, ocupou-se de formalizar muitos dos conceitos psicanalíticos em grafos e matemas, a fim de dar uma condição lógica a sua transmissão. Sua produção teórica, portanto, dá sustentação e justificativa ao emprego da lógica em psicanálise. Flesler se apropriou dessa teorização para propor sua própria formalização na psicanálise de crianças.


Algumas ideias centrais da teoria lacaniana merecem breves apontamentos antes que possamos apresentar a proposta flesleriana: a teoria do sujeito e a teoria do nó borromeano. Foi Lacan quem propôs a existência de um sujeito do inconsciente, tomando como suporte a linguística e sua teorização do significante; no texto Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, de 1960, ao apresentar o grafo do desejo, Lacan (1988) situa o sujeito barrado como ponto de partida, barrado pela linguagem, que dá passagem de um tempo mítico a um tempo de reconhecimento de um eu, ou seja, o sujeito nomeado por Lacan estaria marcado pela entrada na linguagem. A entrada no campo da linguagem está representada pelo Outro, que Lacan define como lugar do tesouro dos significantes, quer dizer, o lugar de onde o sujeito recolhe os significantes que marcam aquilo que ele é; nesse texto, também está sua famosa definição de que o significante representa o sujeito para outro significante. Assim, Lacan propõe o sujeito numa dimensão simbólica, sujeito que é suportado por uma cadeia de significantes desde o campo do Outro, cadeia essa que vai produzir significação no plano do sentido (dimensão imaginária).


É importante mencionar que, ao longo do ensino de Lacan, as ideias de Simbólico, Imaginário e Real foram se construindo. No início, ele estava mais preocupado em diferenciar as instâncias Simbólico e Imaginário na psicanálise, com o fundamento de que os psicanalistas pós-freudianos haviam produzido equívocos ao estabelecer uma prática voltada ao fortalecimento do ego; visava “recuperar” a eficácia simbólica da prática psicanalítica proposta por Freud. Essa crítica aparece principalmente nos primeiros seminários.


Posteriormente, Lacan veio a desenvolver a ideia de Real e, mais ao final de seu ensino, introduziu a teoria dos nós, em que as três instâncias ganharam uma amarração entre si, conhecida como nó borromeano. Esse nó merece destaque do ponto de vista da formalização, porque permitiu a Lacan, finalmente, dar um lugar de estrutura às três instâncias que, ao longo de seu ensino, aparecem mais ou menos separadas. Ele próprio não as definiu como separadas, mas seus leitores chegam a considerar “o Lacan do Simbólico” e “a clínica do Real”, por exemplo, referindo-se à preponderância que essas ideias tiveram ao longo dos seminários de Lacan em cada período. Porém é possível ler, em sua obra, a construção de uma teoria que não se contradiz, mas que foi agregando elementos até alcançar uma formalização mais precisa.


Para as relações que tecemos aqui, é conveniente entendermos resumidamente o que define um nó borromeano. Em síntese, essa armação de três fios segue a regra de que se deve entrelaçar um fio por cima do anel superior e por baixo do anel inferior. Fazemos, primeiro, o anel do Real, em seguida, o anel do Imaginário, cobrindo parcialmente o anel do Real, e, depois, o fio do Simbólico, por cima do que está na parte superior e por baixo do que está na parte inferior, circunscrevendo seu próprio anel. Feita essa armação do nó borromeano (figura 1), temos algumas propriedades a considerar: a primeira é que esse nó entrelaça os três anéis, porém, ao desatar um deles, desarma-se a estrutura e os outros dois anéis também se separam. A segunda é que cada um dos registros (representados pelos anéis) encontra um limite nos outros dois.



Figura 1 - nó borromeano


Desse modo, a teoria do sujeito em Lacan e sua proposta de um nó borromeano, para pensarmos os registros que convergem para a constituição e sustentação desse sujeito, nos levam ao desdobramento de um sujeito da estrutura – a estrutura RSI (Real, Simbólico e Imaginário) –, o que vai além da proposta inicial de Lacan quando propôs o sujeito do significante a partir da linguística, em que este estava situado mais ao nível do Simbólico.

Flesler pontua isso em seu primeiro livro:


A estrutura do sujeito escrita com o nó acarreta uma consequência benéfica: a consideração do sujeito não somente como sujeito estruturado pelo Simbólico nem apenas como sujeito do Real ou do Imaginário, mas como a própria estrutura R.S.I. (FLESLER, 2012, p. 25).


Um segundo ponto, ainda em Lacan, é que, no centro do nó borromeano, ele situa o objeto a, conceito que ele próprio nomeou como seu invento e que também foi construindo ao longo de seu ensino, especialmente depois de 1957, quando o menciona ao trabalhar o grafo do desejo, em texto de 1957-1958 (LACAN, 1999). Flesler nos chama a atenção de que para Lacan, esse conceito tem dupla função:


A propósito do objeto a, e para seguir o fio de minha proposta a respeito da variável temporal, é preciso recordar que, para Lacan, o objeto a escreve uma dupla função: como falta, será causa do desejo; como mais-de-gozar, será objeto do gozo. Quando o objeto falta ou está ausente, opera dando causa ao desejo; em troca, quando está presente, é um mais-de-gozar que, caso se mantenha fixo, obstrui, como um tampão, o sítio ou furo necessário para o engendramento ou promoção do movimento desejante. (FLESLER, 2012, p. 26).


Desse modo, a teoria de Flesler se sustenta nessas referências quando se propõe responder à pergunta: o que é uma criança para a psicanálise? Pois uma primeira resposta que daí suscita, quando voltamos a Freud, é de que a criança não é objeto da psicanálise. E, quando seguimos com essa investigação em Lacan, uma segunda resposta é de que a criança não é o sujeito. Ora, o que é, então, e como circunscrever esse objeto nesse campo teórico?


A criança é um objeto com valor fálico para o Outro, propõe Flesler (2021) afinal. Se a criança é um objeto, não é necessariamente um sujeito. Se tem valor fálico, significa que é um objeto causa de desejo a alguém, situado justamente nesse Outro. E não é irrelevante que aqui se escreva Outro com O maiúsculo, pois, desse modo, pode-se pensar uma mãe, e o valor fálico desse objeto, a criança, pode ser o de filiação, por exemplo; mas essa não é a única e restrita possibilidade, pois, de acordo com Lacan ([1960] 1988), o Outro é um lugar onde se situa o tesouro dos significantes e de onde um “pequeno outro” poderá fazer função de introdução do sujeito na linguagem.


Mas que tipo de objeto é a criança para o Outro, considerando a amplitude do que possa se atribuir a “valor fálico”? Flesler nos ajuda a pensar essa questão apontando que:


É diferente ser um objeto de desejo ou um objeto de amor ou de narcisismo dos pais, como Freud expressa em “Introdução ao narcisismo”. A distinção bem vale a pena, porque se no plano do amor imaginário se espera-o como objeto de satisfação narcísica, ao ser assimilado o objeto de gozo surgem expressões como “eu o comeria todo”, “eu o apertaria” ou “eu o mataria”, todas elas reveladoras do forte matiz pulsional que as anima. Seguramente, pode-se observar o quão diferente deve ser o destino de uma criança situada no entrecruzamento do amor, do desejo e do gozo dos pais, devido à delimitação que acarreta em relação a outro situado sem o limite benéfico de um bom enlace, apenas como um objeto de desejo ou de amor, ou como objeto de puro gozo. (FLESLER, 2021, p. 55).


Nesse sentido, podemos colocar em questão a condição de uma criança que não é objeto de desejo ou de amor dos pais. Como objeto de puro gozo, uma criança pode ser, por exemplo, abandonada, seja no sentido literal ou no sentido do abandono subjetivo, mesmo em presença de alguém que a alimente e forneça os cuidados básicos. A localização dessa criança enquanto objeto que faz falta (e por isso tem valor fálico) a um outro, é precisamente o lugar de onde pode advir um sujeito. O sujeito, para Flesler (2021), é o objeto da psicanálise.


Assim, a criança é um objeto que ocupa um espaço circunscrito no Outro. O sujeito é uma resposta a esse lugar, de modo que, quando uma criança chega para análise, quem chega é sempre a criança do Outro, sendo que cabe ao analista se ocupar de seu objeto, o sujeito da estrutura. O analista atende a criança, mas aponta para o sujeito (FLESLER, 2021). A partir dessa premissa, é possível deixar as condições ideais para uma análise, estabelecidas por Freud, e pensar a psicanálise de crianças em suas especificidades no que diz respeito à constituição do sujeito, formulação essa que escapa ao campo da idade cronológica ou da especialidade do analista.

A constituição do sujeito não é um processo natural ou espontâneo, não segue as mesmas leis da maturação biológica, como se poderia considerar sobre a criança em seu aspecto estritamente orgânico, por exemplo. Ocorre que o sujeito não tem idade, mas tem tempos (FLESLER, 2012), tempos do Real, do Simbólico e do Imaginário. Esses tempos do sujeito são equivalentes e concomitantes, se armam ao estilo do nó borromeano, em que cada um dos registros segura os outros dois e, uma vez que um não se faz ou falha, é a estrutura que sofre consequências. Esse é o conceito central na obra de Flesler, pois é sob essa lente que ela apresenta uma metodologia para a prática clínica com crianças.


Os tempos do sujeito necessitam de uma recriação da falta para avançar. Quando o objeto a – que Lacan situa no centro do nó borromeano, fazendo função de causa de desejo e de mais-de-gozar – se alterna nessas duas posições, há recriação e os tempos podem se deslocar. Ao contrário, quando esse “jogo” não acontece, os tempos se detêm, como afirma:


Se o objeto a oscila entre a presença e a ausência, surge a periodicidade, a alternância, o ritmo: o objeto “faz jogo”. Em outras palavras, “há recriação”. Dessa maneira, é interessante apreciar até que ponto o movimento recriativo da falta exige necessariamente uma renovada perda de gozo, condição indispensável para alcançar uma nova dimensão de gozo enlaçada ao desejo. (FLESLER, 2012, p. 26).


Se a criança é o objeto (de gozo) do Outro, é quando esse lugar se alterna que o sujeito pode existir, ou seja, é a partir dessa possibilidade que a criança pode ser mais que um objeto. Essa lógica situa de outro modo a posição do analista na psicanálise de uma criança, pois apresenta condições lógicas para a direção do tratamento, e não critérios ideais. As intervenções do analista são distintas e plurais quando intervêm no Real, no Simbólico ou no Imaginário, de modo que a pergunta inicial é: em que tempo está quem chega para análise? Mapear os tempos do sujeito quando uma criança chega para análise e localizar que espaço ocupa para quem a traz fornece orientações precisas para essa clínica, tanto em relação à criança quanto em relação a quem a traz.


Considerando a criança em análise sob a perspectiva dos tempos do sujeito, é possível daí estabelecer formalizações também para os tempos da transferência, tempos do brincar e tempos do desenho, a fim de orientar as intervenções em análise. Essas formalizações estão especialmente apresentadas no livro A criança em análise e as intervenções do analista (FLESLER, 2021). Além disso, o ganho de uma formalização lógica para a psicanálise de crianças, como se pode verificar ao longo da obra de Flesler, é que esse conjunto de ferramentas se presta também a uma orientação do desejo do analista em relação à clínica com adultos, pois, para Flesler (2021), o desejo do analista é um desejo de que o sujeito – essa resposta ao Outro – possa existir.



3. Considerações finais para novas proposições


Essa sucinta introdução à obra de Alba Flesler, a partir da pergunta-fundamento sobre o que é uma criança para a psicanálise, nos apresenta três proposições, que podemos situar na transmissão de Freud, Lacan e Flesler. Tais proposições são, ao mesmo tempo, esclarecedoras para o campo da psicanálise de crianças e apresentam, em seu conjunto, um método de apropriação da teoria psicanalítica que é, no mínimo, inspirador para aplicação a outras problemáticas de nossos tempos.


Primeiro, a leitura flesleriana faz o devido percurso em Freud. É preciso, antes de qualquer proposta nova, reconhecer o lugar fundante da teoria psicanalítica e sua influência para as investigações que se seguiram nos diversos campos teóricos em que a psicanálise comparece. Se Freud foi mobilizado por um sintoma de seu tempo – a histeria nas mulheres – e esse traço de sua obra comparece até hoje nas discussões sobre gênero, feminino, sexuação, entre outras tantas categorias de discussão que muito já avançaram desde o século passado, isso não seria diferente com relação a outros temas tratados pelo autor. O lugar da criança na proposta freudiana, como vimos, ficou remetido a um “não lugar”, sendo a psicanálise direcionada para o trabalho com neuróticos adultos. Essa característica na história da psicanálise fez com que se repetisse a tentativa de situar, em relação às crianças, as técnicas e condições desenvolvidas para adultos, o que resultou em polêmicas e equívocos desde então.


Reconhecer que Freud não deu lugar à clínica com crianças em sua teorização da psicanálise não implica desconsiderar sua proposta teórica, mas tomá-la ao pé da letra no sentido de avançar com base na experiência, e não apenas na teoria, como ele fez observando os sintomas que encontrou em suas pacientes histéricas. É precisamente nessa direção que Flesler segue ao propor outras perguntas em suas investigações a partir da experiência clínica com crianças.


A segunda proposição dessa introdução à obra de Flesler diz respeito à formalização lógica de Lacan. O autor fez da causa de sua obra um retorno a Freud para relê-lo de um modo diferente do que os psicanalistas de sua época vinham fazendo. Lacan articulou outros campos de conhecimento com a psicanálise, que o ajudaram a traduzir os conceitos psicanalíticos propostos por Freud em formalizações lógicas, desenvolvimento que fez avançar a psicanálise inclusive como um modelo discursivo. Em seu ensino sobre os circuitos do desejo, Lacan (1988) apresenta o Outro como um lugar de introdução do sujeito na linguagem, o que resulta poder pensá-lo para além da configuração criança-mãe-pai, já que a noção de Outro amplia essas possibilidades, operação que bem se pode verificar na prática clínica cotidiana. Além disso, Lacan (1988) previu que a configuração edipiana poderia não se sustentar por muito tempo, a partir de uma sociedade em que a condição trágica se enfraquecia.


Mais do que formalizações lógicas diversas, Lacan deixou como herança a perspectiva de um sujeito estruturado borromeanamente, chegando a afirmar que o sujeito é a estrutura (RSI). A lógica desses três registros, o Real, o Simbólico e o Imaginário, se presta a operar como ferramenta de múltiplas aplicações. Flesler se apropriou com excelência dessa transmissão lacaniana para dar-lhe usos que nem mesmo Lacan previra ser possível. Esse autor, assim como Freud, não deu destaque à prática clínica com crianças em seu ensino, mas explorou profusamente a noção de sujeito, o que Flesler considera ser o real objeto da psicanálise.


A terceira proposição que merece destaque é a própria formulação de Flesler em sua prática clínica com crianças. Interrogando-se sobre sua experiência clínica, a autora localizou os equívocos de seus antecessores e os recursos teóricos capazes de dar base e sustentação para uma nova proposta teórica, que contornasse o impossível dessa prática com novas bordas simbólicas, dando passagem a outros possíveis como objeto de pesquisa, clínica e transmissão. Dessa implicação nasceu uma nova lente para a psicanálise de crianças, a dar vista a partir de tempos do sujeito, atendendo assim à criança, mas sempre apontando o sujeito como objeto da psicanálise e do desejo do psicanalista.


Esse percorrido dá luz a um método de intervenção na clínica com crianças, considerando aqueles que as trazem, método que dá lugar a especificidades dessa prática psicanalítica sem elegê-la a uma especialidade. Nos dá também um modelo de investigação para questões que emergem da clínica contemporânea, a saber, a apropriação da transmissão freudiana e lacaniana junto à experiência de cada psicanalista, para daí fazer surgir novas proposições, pois não há como rever a teoria psicanalítica sem considerar a cultura a seu tempo e disso produzir novas perguntas que façam a psicanálise avançar.


Segundo esse percurso teórico sobre o lugar da criança na psicanálise, uma das questões que fica para seguir sendo explorada com base na teoria flesleriana é sobre a necessidade de ainda se sustentar na psicanálise um modelo edipiano. Como foi mencionado, o uso do termo Outro, desde Lacan, como lugar do tesouro de significantes de onde se introduz a linguagem a uma criança, permite pensar o suporte do Outro como figuras diversas de pai e mãe. Porém Lacan não deixou de nomear as funções perante a criança de materna e paterna. A pergunta seria: a partir da construção flesleriana sobre os tempos do sujeito e sobre intervenções que dizem respeito aos tempos do Real, do Simbólico e do Imaginário, seria possível formalizar outro modelo, no qual os envolvidos estejam situados de forma mais abrangente e apontando mais possibilidades, sendo assim menos referidos ao trio criança-mãe-pai?



 

Gostou do conteúdo? Quer continuar estudando sobre a psicanálise de crianças? Assista à aula aberta ao público Psicanálise com crianças e o lugar do analista, ministrada pela psicanalista Alba Flesler no Instituto ESPE! (legendado em Português)


Psicanálise com crianças e o lugar do analista (Parte 1):


Psicanálise com crianças e o lugar do analista (Parte 2):


 

Sobre o autor: Josias Santos Fontoura é mestrando em Psicanálise: Clínica e Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Percurso de Formação em Psicanálise pela Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Graduação em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2016 - UNISINOS). Membro do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Infâncias (NEPIs) da UFRGS. Integrante do Projeto de Pesquisa Infâncias e Psicanálise: Metodologias, Dispositivos e Intervenção (UFRGS). Atende em consultório particular nas cidades de São Leopoldo e Novo Hamburgo. Membro do Conselho Editorial da Editora Discurso, responsável por trabalhos de tradução, edição e publicação de autores como Alba Flesler (2021), Roland Chemama (2022) e Ricardo Rodulfo (2023) no Brasil. Se dedica aos seguintes temas de pesquisa: nó borromeano; constituição psíquica; contemporaneidade; formação psicanalítica.



Revisão e publicação:


Revisão e publicação realizada pelo psicanalista e pesquisador Thales de Medeiros Ribeiro. Mestre e doutor em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-Unicamp). Pós-doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP). Vice-líder do grupo de pesquisa PsiPoliS (Psicanálise, Política, Significante) do IEL-Unicamp. Integra do Fórum do Campo Lacaniano da Região Metropolitana de Campinas (em formação), e docente da disciplina de Metodologia da Escrita e Pesquisa das especializações do Instituto ESPE.



Recomendações e referências


FERENCZI, S. Obras completas. São Paulo: Martins Fontes, 1992a.


FERENCZI, S. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992b.


FLESLER, A. A criança em análise e as intervenções do analista. São Leopoldo: Discurso, 2021.


FLESLER, A. A psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.


FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1905]. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 6. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 13-172.


FREUD, S. Análise da fobia de um garoto de cinco anos (O pequeno Hans) [1909]. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 8. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 123-284.


FREUD, S. Introdução ao narcisismo [1914]. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010c. p. 13-50.


FREUD, S. Batem numa criança: contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais [1919]. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010b. p. 293-327.


FREUD, S. Além do princípio do prazer [1920]. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010a. p. 161-239.


FREUD, S. Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina [1920]. In: FREUD, S. Obras Completas. v. 15. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 114-149.


LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.


LACAN, J. O Seminário: livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.


SÓFOCLES. A Trilogia Tebana. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.


WINNICOTT, D. W. Holding e interpretação. São Paulo: Martins Fontes, 1991.



 

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