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O Psicanalista e seus Ideais

Os ideais são elementos onipresentes em qualquer análise, tanto aqueles que, em tese, seriam autenticamente eleitos pelo próprio paciente, mas também aqueles aos quais o paciente está fortemente ligado e, claro, não se dá conta disso.


Curiosamente, no texto O Ego e o Id, Freud (1923) imprime uma significação especial para a noção de ideal, na verdade o conceitua como um Ideal de Ego ou ainda um Ego Ideal, produtos finais de dinâmicas particulares do ego de um sujeito frente às identificações e escolhas objetais que se dão durante o desembaraço do Édipo. Ou seja, neuroticamente, não apenas idealizamos as coisas, mas também a nós mesmos.


Portanto, se o neurótico necessita repensar a relação com os ideais que gravitam em torno de sua existência, até mesmo pelos efeitos de alienação e limitação de múltiplos ângulos de sua vida cotidiana, não seria exagero dizer que o psicanalista também devesse praticar esse mesmo exercício, visto que o trabalho é comumente idealizado e, no caso, o psicanalisar não seria exceção.


Mas, vale dizer, Freud parecia estar percebendo tal risco e, em 1921, lança seu clássico Psicologia de grupo e análise do Ego, num momento histórico atravessado pelo nazismo e pelas guerras mundiais, no qual as massas demonstravam níveis mínimos de bom senso, expondo a agressividade presente nos horrores da guerra.


Num primeiro olhar, esse trabalho de Freud captura o leitor mostrando como se dá a vida em grupo, o que de fato faz laço e, principalmente, a figura do líder como potência de coesão e funcionalidade de um grupo. A relação com o nazismo, a figura de Hitler e, em especial, com o anti-semitismo é quase direta, mas Freud, com sua sagacidade habitual, também problematizava algo essencial, na verdade a relação dos analistas com seu grupo, com os ideais que o interpelam e, fundamentalmente, como isso tudo pode vir a ser fonte de muitas questões grupais, por vezes enigmas que merecem um olhar mais acurado.


Aqui no caso, me deterei um recorte específico, a de que diz da função do líder, de que o Ego dos participantes do grupo se identifica ao Ego do líder e, com isso, mimetizam sua personalidade e afinas. Bem, e quando um ideal é o líder de um grupo, metaforicamente falando?


Pensando em termos psicanalíticos, podemos nos perguntar: os psicanalistas defendem, secretamente, certos ideais particulares de sua profissão, ideais compartilhados de sua comunidade de pares ou ainda, ideais de perfeição que remeteriam a um Psicanálise almejada por todos, um ideal coletivo?


Bem, como ficariam os pacientes nesse cenário? Talvez tivessem que se encaixar no ideal de seu psicanalista, encarnar certo tipo de paciente, ideal ou idealizado, além de tentar adivinhar o que poderia ser melhor, como se portar, o que dizer, enfim, a antítese do que seria a associação livre e, claro, da liberdade que o paciente pode e deve ter na relação com o analista, afinal, não há dúvidas de que a Psicanálise é uma prática libertária, mesmo as vezes pagando um alto preço por isso, como Freud (1917) deixava subentendido em seu Uma dificuldade no caminho da Psicanálise.


Entretanto, a relação do neurótico com o ideal passa pelos vieses do Narcisismo, aliás temática explorada por Freud (1914), mostrando que o Ego aprecia os ideais, pois os transforma em deveres, especialmente quando o Super Ego entra em cena. Isso redunda, paradoxalmente, em uma resistência a abrir mão desse ideal em questão, revelando um prazer muito particular e, como não poderia deixar de ser, quase imutável.


A saída é esvaziar o Ego e se desalienar dos ideais, se perguntando se vale a pena insistir nas figuras de ideal de psicanalista ou, pior ainda, de um psicanalista ideal.


Os pacientes merecem coisa melhor! A Psicanálise também...



 


DICAS DE LEITURA PARA APROFUNDAMENTO BIBLIOGRÁFICO:



FREUD, S. (1914). Sobre o narcisismo. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.14, p. 89-122).



FREUD, S. (1917). Uma dificuldade no caminho da Psicanálise. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 17, p. 171-184).



FREUD, S. (1921). Psicologia de grupo e análise do ego. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 18, p. 91-184).



FREUD, S. (1923). O ego e o id. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 19, p.23-90).


 

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