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Psicanálise e sofrimento psíquico na clínica contemporânea.

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    Instituto ESPE
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Texto escrito por Maria Livia Moretto. Psicanalista. Doutora em Psicologia Clínica pela USP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Chefe do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP. É coordenadora do Laboratório de Pesquisa Psicanálise, Saúde e Instituição (LABPSI) do IPUSP. Editora-Chefe da Revista Psicologia USP. Professora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.


A Professora Maria Lívia Moretto, inicia a aula agradecendo o público presente, diz que é a primeira vez que está fazendo uma transmissão através do Instituto ESPE, ela conduz a discussão sobre a psicanálise nas instituições de saúde, descrevendo, a partir de sua experiência em hospital e rede assistencial.


A questão central, que permeia a conversa da Professora Maria Lívia nesse Podcast é: o que faz uma instituição hospitalar de saúde regida pela lógica neoliberal, ordenada pelo discurso do médico, manter um psicanalista e porque o psicanalista se mantém nessas instituições?


Em seguida, ela formula uma premissa construída ao longo de décadas de atuação: se o psicanalista se sustenta na instituição, isso ocorre porque seu trabalho produz efeitos que interessam à própria instituição. Lívia Moretto enfatiza que não se trata de uma manutenção “por prestígio” da psicanálise ou por uma suposta curiosidade institucional; o que conta, do ponto de vista da instituição, são os resultados e efeitos clínico-institucionais que emergem quando alguém sustenta o discurso analítico em um campo de “alteridade radical”, atravessado por outras lógicas, especialmente a do discurso médico.


A professora então faz um recorte de um aspecto específico dessa presença: as demandas dirigidas ao psicanalista (ou, muitas vezes, ao “profissional psi”) sinalizam a existência de sofrimento, mas, sobretudo, indicam a dificuldade dos profissionais e das equipes em manejar esse sofrimento. Ela sublinha que não é apenas a presença do sofrimento que convoca a atuação do “campo psi”, e sim o modo como o sofrimento do paciente e também dos familiares e profissionais retorna e insiste quando não encontra um lugar de elaboração. Nesse ponto, ela destaca que as instituições de saúde podem ser altamente equipadas para tratar a doença do ponto de vista técnico no quis respeito a biologia do paciente, mas frequentemente são pouco equipadas para lidar com a dimensão do sofrimento psíquico, cujo principal recurso é uma escuta clínica qualificada.


A partir daí, Lívia Moretto afirma que compreender o conceito de sofrimento é crucial para sustentar o que ela chama de experiência do cuidado em psicanálise no contexto institucional. Para desenvolver essa ideia, ela escolhe a vertente clínica do trabalho: atendimentos a pacientes adoecidos e seus familiares, isto é, situações em que o sujeito está na instituição por estar vivendo um processo de adoecimento.


Nesse movimento, a professora propõe que o adoecimento seja pensado por meio de duas noções articuladas: adoecimento como acontecimento e adoecimento como experiência singular. A professora explica que a doença pode operar como um acontecimento de corpo, um marco que corta a linha do tempo e divide a vida em antes e depois. Esse acontecimento, muitas vezes, aparece inicialmente como sem sentido, exigindo do sujeito um esforço psíquico para atribuir significação ao que irrompeu sem aviso. O adoecimento pode ser disruptivo porque rompe ritmos de vida, projetos e ideais; por isso, costuma produzir efeitos psíquicos como surpresa, vergonha, tédio, solidão, impotência e desamparo. A professora insiste que esse impacto demanda uma despesa psíquica: um trabalho de metabolização do excesso, como quando o paciente diz que é demais.


Em seguida, ela diferencia com precisão as noções. O acontecimento é descrito como o fato: algo localizável no tempo e no espaço, passível de ser narrado por vários e organizado em termos de história da doença, tal como aparece na anamnese médica. Já a experiência é a dimensão subjetiva do acontecimento: a maneira singular pela qual o sujeito se apropria do que lhe ocorreu, isto é, o processo de subjetivação da doença. A professora evidencia que o acontecimento pode ser reconstituído e testemunhado por muitos, mas a experiência só pode ser dita por quem a vive; por isso, ela a caracteriza como algo da ordem do singular.


Essa aula deixa explicita a tese clínica que orienta o cuidado psicanalítico na instituição, ou seja, os profissionais do campo “psi”, e especialmente o psicanalista, ocupam o lugar de profissionais da experiência. O interesse do trabalho não é apenas descrever o que aconteceu, mas favorecer que o sujeito transforme acontecimentos em experiências de vida, construindo uma apropriação subjetiva do que irrompeu no processo de adoecimento. Lívia Moretto ressalta que essa passagem do acontecimento para a experiência não costuma acontecer sozinha. Ela depende da construção de uma narrativa do paciente, e essa narrativa não deve ser fornecida pelo profissional; ao contrário, o profissional se coloca à disposição para que o sujeito a construa.


Nesse ponto, a professora introduz a função do interlocutor qualificado, também chamado por ela de figura de alteridade que é alguém que testemunha e sustenta a elaboração, oferecendo-se como ponte para que o sujeito encontre palavras e organize sentido. Ela observa que, embora esse lugar possa ser ocupado por outras figuras em outros dispositivos, no cenário que ela descreve a função do psicanalista é justamente sustentar esse tipo de presença clínica.


Ao abordar as situações mais frequentes após o anúncio de um diagnóstico, a professora Lívia Moretto relata que muitos pacientes formulam perguntas como, por que agora? e por que comigo? não como questões respondíveis objetivamente, mas como tentativas de se localizar diante do imprevisto. Em outros casos, o sujeito se vê sem palavras: há uma interrupção simbólica, um inédito que ainda não pode ser dito. A professora associa essa cena ao afeto da angústia, entendida como um afeto que incide no corpo quando o real irrompe sem representação simbólica.


Ela acrescenta que o adoecimento confronta o sujeito com a constatação de que se tem um corpo que não coincide plenamente com a imagem, com o domínio e com os ideais. O corpo revela uma dimensão secreta, real, geralmente recalcada na vida cotidiana.


Assim, o adoecer convoca uma experiência de limite: faz retornar à percepção da precariedade da vida e, frequentemente, associa-se à sensação de envelhecer. Para a professora, não se trata de algo bom ou ruim em si, mas de uma constatação, ou seja, o corpo testemunha a passagem do tempo.


Para a professora Lívia Moretto, para muitos pacientes, o adoecimento recoloca na consciência a ideia de finitude. Embora todos saibam cognitivamente que a vida é finita, essa formulação costuma ficar recalcada para que se possa viver. No hospital, quando a finitude retorna, ela precisa ser escutada e elaborada. A professora diferencia o recalque da negação e descreve um impasse clínico frequente entre os profissionais que tentam devolver o recalque ao paciente, pedindo que ele não pense nisso, em vez de sustentar um espaço onde essa experiência possa ser simbolizada.


Ao final da aula, a professora faz uma conexão entre essa elaboração ao tema do trauma. Lívia Moretto afirma que acontecimentos têm potencial traumático, mas que o trauma se consolida especialmente quando o sujeito precisa fazer a passagem do acontecimento para a experiência e não encontra um interlocutor qualificado. Ela alerta para um risco institucional, onde a figura de alteridade pode degradar-se, em figura de autoridade, falando no lugar de escutar e, pior, desmentindo o sofrimento. Nesses casos, o acontecimento tende a se repetir como experiência traumática, exigindo o trabalho contínuo de elaboração por parte do psicanalista.


A professora segue a aula respondendo as dúvidas dos ouvintes. Sobre uma questão recorrente, que se refere a psicossomática, onde ela se recusa explicações simplistas e dicotômicas entre o orgânico e psíquico. Lívia Moretto, sublinha que a psicanálise, através da referência ao conceito freudiano de pulsão, evita opor corpo e psiquismo como domínios estanques. Ela também problematiza a ideia de culpa como causa direta de doenças graves e retoma a orientação clínica: na instituição, o psicanalista busca sustentar a singularidade e a dimensão transferencial do encontro clínico, inclusive frente a modelos gerenciais baseados em indicadores.


A professora Lívia Moretto, em suas respostas finais, reafirma que o trabalho psicanalítico nas instituições hospitalares também se estende às famílias e que, em ambientes com muitos atores, a coordenação e o pacto interdisciplinar podem reduzir vivências invasivas, permitindo que a cena institucional seja lida como apresentação de cuidado.


Essa reescrita, em terceira pessoa, preserva o núcleo do ensinamento: a professora mostra que, nas instituições de saúde, a psicanálise se sustenta não por identidade institucional, mas por seus efeitos e que o cuidado psicanalítico consiste em sustentar, por meio da escuta e da alteridade, a passagem do acontecimento-doença para a experiência singular do sujeito, evitando que o sofrimento seja silenciado e que o acontecimento se cristalize como trauma.


A professora Lívia Moretto, entra na faze final dessa aula respondendo a uma questão de uma aluna sobre as demandas institucionais relacionadas aos indicadores nos hospitais. Para responder a pergunta, a professora faz referência a um dos capítulos do seu livro, Como a psicanálise responde as demandas institucionais? E a professora responde dizendo que, hoje em dia há uma pendência geral nas instituições em tornar o encontro clínico do médico numa dimensão avaliativa e diagnóstica, sem levar em conta a relação e o vínculo com o paciente. Quando isso acontece, a clínica acaba e se estabelece um discurso que não favorece a saúde e sim a doença, a consequência é a crise na saúde.


O psicanalista retoma na reunião clínica, a dimensão transferencial do encontro clínico, a fim de resgatar algo de singular do sujeito. A psicanálise se sustenta pelos efeitos, ou seja, não cede a lógica do apagamento do sujeito, logo, a questão inicial de como o psicanalista se sustenta a partir das demandas institucionais hoje, a resposta é, fazendo valer a singularidade nos processos decisórios do caso clínico do sujeito junto a equipe multidisciplinar.




 
 
 

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