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O que é a psicanálise?

Atualizado: 8 de mai. de 2023

Texto escrito pelo psicanalista Tiago Ravanello, Doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ com pós-doutorado em Psicologia Clínica na USP.



A psicanálise já havia se tornado razoavelmente conhecida na década de 1920, sobretudo na Europa, quando a Enciclopédia Britânica solicitou ao próprio Sigmund Freud, enquanto criador e principal propagador do método, a escrita de dois verbetes explicando o que seria a psicanálise (e, ainda, a teoria da libido). Vejamos então, nas palavras de Freud, o que seria a psicanálise e, a partir disso, tentaremos aprofundar a definição e compreender o que gera tanta confusão na apreensão do termo, nos limites de sua prática e no que concerne a sua aplicabilidade:


"PSICANÁLISE é o nome de (1) um procedimento para investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, (2) um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos e (3) uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica." (FREUD, 1923/2006, p. 253).


Analisando detalhadamente a citação de Freud, podemos dizer que sua definição inicial é a de pensar a psicanálise como um método duplo de investigação. Dito de outra forma, a psicanálise seria um método de pesquisa e um método de tratamento que é derivado de um modo de pesquisa, ou ainda, em sua face de tratamento clínico implica a coincidência entre a investigação como um modo de promoção do cuidado à saúde mental. Enquanto método de pesquisa, a psicanálise teria como pressuposto fundamental a tese de que o inconsciente determina nossos modos de ser, nossas escolhas e nossos meios de repetição que repercutem tanto nas nossas características pessoais quanto no nosso comportamento. Logo, tudo o que dizemos, as formas como agimos e, inclusive, nossas decisões conscientes seriam diretamente influenciadas por uma outra lógica de pensamento, que chamamos de inconsciente. Por ter (ou ser) outra lógica de pensamento, o inconsciente não pode ser compreendido como apenas a falta de consciência, como se fosse um pensamento que obedecesse as mesmas regras porém que ocorreria sem o auxílio ou fora do alcance da consciência. Se bem entendido, é justamente por isso que a psicanálise, em suas diferentes vertentes, não utiliza o conceito de “subconsciente” (para evitar uma má compreensão de uma dupla consciência, ou de uma consciência por baixo da consciência).


Contudo, se esse pensamento não segue as mesmas regras, se ele não se organiza da mesma forma, ele precisa portanto de outros meios para ser abordado. É nesse sentido que, antes de tudo, a psicanálise se oferece como um meio de pesquisa e investigação, ou, mais especificamente, como um método de escuta. Para o psicanalista, a utilização do método psicanalítico implica “escutar” algo, seja um fenômeno social que é determinado por elementos discursivos que precisam ser pesquisados, que não se mostram em sua superfície consciente; seja um objeto da cultura, que implica em várias linhas de associações que se estendem para além de uma face superficial; seja um sofrimento ou sintoma, que se repete em suas formas de determinação para além do que pode ser compreendido pela consciência.



Qual a relação entre pesquisa e psicanálise?

É justo que chamemos de psicanálise o uso do método que visa escutar elementos inconscientes de fenômenos ou processos sociais, em sua face individual ou coletiva, desde que seja orientada por uma concepção de inconsciente como determinante em relação ao pensamento consciente. Isso nos dá uma visão do que seria a pesquisa psicanalítica, mas não necessariamente do que seria sua aplicação clínica, ou seja, da psicanálise como um método de tratamento. Nesse caso, a investigação parte do mesmo princípio, mas com outra aplicabilidade e com uma ligeira mudança, mas que faz toda a diferença: na investigação clínica, o analista oferece sua escuta, mas a investigação depende de um processo ativo de produção de material por parte do analisando. Freud deu a esse processo o nome de “associação livre”. Esse tratamento, que faz coincidir a busca pela causalidade inconsciente com o tratamento oferecido poderia ser compreendido como um tratamento baseado na verdade e seus modos de transformação, ou, dito de outra forma, num encontro trágico consigo mesmo, já que defrontar-se com o desejo inconsciente implica também em estar frente-a-frente com tudo aquilo que habita em nós e que faz conflito com os aspectos éticos, estéticos e morais de nosso eu. Ao associar livremente, o analisando ou analisanda se propõe a suspender quaisquer formas de seleção de material, de julgamento ou escolha consciente sobre o que será dito, o que Freud chamou de “regra de ouro” do método psicanalítico. O ou a psicanalista entra nesse jogo com uma contrapartida, que seria um modo especial de escuta que denominamos “atenção flutuante”. Se para o analisando a regra é falar o que vier à cabeça, para o analista a regra seria diferente, Freud a resumiu como o dever de “flutuar sem submergir”. Isso porque a escuta do analista não se orienta necessariamente pelo sentido do que é dito, mas pela intensidade dos afetos que marcam o que é dito. O/a analista, portanto, flutua no dizer do seu analisando pontuando as lacunas, indicando as repetições, colocando questões que levam o analisando ou analisanda a também defrontarem-se com a face inconsciente de seu discurso.


Revisando a citação de Freud, podemos então dizer que existe pesquisa em psicanálise que não é clínica, mas que não existe clínica em psicanálise que não seja também um modo de pesquisa. Da mesma forma, podemos concluir que quando falamos de “psicanálise” estamos falando de um campo de atuação científica que abarca essas atividades de clínica e pesquisa e, em parte, provem daí uma certa dificuldade de compreensão da separação entre esses âmbitos da experiência, sobretudo no que diz respeito à formação. O motivo disso é que pressupõe-se que o método de pesquisa com base na disciplina psicanalítica possa ser exercido por pesquisadores de outras áreas, sem uma formação específica que lhes autorize a nomeação de psicanalistas. Porém, o mesmo não é válido quando se trata da atuação clínica, que demandaria a formação de um analista para o exercício da prática.


Segundo Freud, a formação do analista se daria através de um tripé composto por estudo teórico, atendimentos supervisionados e um percurso próprio de análise do/da analista. E é justamente quando se trata de formação que podemos perceber o quanto o campo da psicanálise é mais vasto do que supomos inicialmente: muito embora tenhamos um ponto de partida comum na obra de Freud, o que nos permite retornar a textos fundamentais e a um arcabouço teórico em volta dos artigos sobre metapsicologia, as diferentes interpretações, apostas epistemológicas e desenvolvimentos teóricos apontam para psicanálises diversas a partir de leituras que marcaram historicamente o campo. Assim, os autores que chamamos de pós-freudianos recortam o universo conceitual freudiano com critérios diferentes, amarrando a trama conceitual através de estruturas diversas de compreensão e, por consequência, de ação e de formação. Interpretar é uma ação diferente se seguimos a leitura lacaniana, kleiniana, winnicottiana, ferencziana e etc.. Se as ações não são as mesmas, os caminhos da formação e os modos de reconhecimento da mesma também não. Logo, quando falamos de “psicanálise” para se referir a uma leitura ou decisão teórica, estamos fazendo uma concessão de síntese do termo, já que, mais corretamente, a psicanálise é uma disciplina que comporta e abarca versões por vezes contrárias ou contraditórias (exemplo semelhante quando falamos em “a” filosofia ou “a” ciência).

Quais os critérios para definirmos se uma prática é ou não "psicanálise"?


Se versões distintas são admitidas no interior do campo psicanalítico, quais seriam os critérios para que o movimento psicanalítico tenha reconhecido determinadas releituras em detrimento de outras? Em primeiro lugar, o campo psicanalítico parte do pressuposto de um aparelho psíquico dividido e em conflito (tanto interno quanto em relação à realidade ou aos outros). Logo, não são admitidas como “psicanalíticas” versões holísticas ou integrativas do sujeito, que visem a harmonia de um todo ou a superação das divisões para a constituição de uma plenitude do ser. Em segundo lugar, e em consequência disso, também é fundamental que nesse processo de divisão, a prioridade seja dada ao inconsciente. Dito de outra forma, faz-se necessário que seja respeitada a tese freudiana do determinismo psíquico e da sobredeterminação do inconsciente. Mesmo as decisões tidas como conscientes se dão após os movimentos desejantes do inconsciente e recortadas pelas censuras e defesas pré-conscientes. Logo, em qualquer versão da psicanálise, repete-se o ato fundador de Freud de descentramento do sujeito que reafirma que o “eu não é senhor em sua morada”. Por fim, mas não menos importante, a psicanálise é obrigatoriamente laica. Sua inserção maior no campo do pensamento se dá na história de movimentos científicos, que se asseguram de um método e que se localizam no campo da linguagem intervindo em sujeitos no intervalo entre o nascimento e a morte. Pressuposições ou hipóteses para além ou aquém desse intervalo (a vida intra-uterina, vidas passadas, o espiritual ou outras formas sacras ou transcendentais) não são aceitas no interior da disciplina psicanalítica. Lembremos, como exemplo maior, que a psicologia analítica de Carl Gustav Jung foi criada justamente a partir da impossibilidade de inclusão no meio psicanalítico de hipóteses que envolviam concepções integrativas e/ou transcendentais.


Poderíamos dizer ainda que essas três premissas metodológicas se desdobram em algumas orientações técnicas igualmente importantes que seriam: a prevalência da fala como modo de atuação, a impossibilidade de redução do psíquico ao orgânico e o abandono da hipnose e da sugestionabilidade como meio terapêutico. Vejamos esses três pontos de forma mais detalhada: quando Freud afirma que a psicanálise constitui-se como uma “cura através da fala”, uma “talking cure”, coloca-se em ação uma aposta de que seu meio de ação será o da fala e que seu método será organizado em torno de operações derivadas do campo da linguagem. Assim, não são aceitas no campo (por serem contraditórias ao método psicanalítico) abordagens que incluam ações diretas sobre o corpo (exercícios de relaxamento, massagens, acupunturas, ervas medicinais e afins) ou sobre o ambiente (tarefas designadas para a mudança de fatores do quotidiano, orientações do terapeuta dadas diretamente às pessoas que compõem a rede de contatos do analisando ou a presença do analista no convívio do analisando para fins terapêuticos). Em relação à impossibilidade de redução do psiquismo, a psicanálise trabalha alinhada com uma orientação da concepção geral de clínica: cessa a causa, cessa o efeito, logo, o tratamento deve ocorrer no mesmo âmbito da causa. Por considerar os conflitos psíquicos na causalidade dos sofrimentos e sintomas que são aptos ao tratamento psicanalítico[1], a psicanálise tem por decisão metodológica evitar a redução do psiquismo ao nível do funcionamento orgânico, especialmente, o funcionamento cerebral. Isso não quer dizer que a psicanálise não possa ser coadjuvante ou ter tratamentos medicamentosos como uma estratégia clínica suplementar. No entanto, suas teses obrigatoriamente não reduzem o psiquismo à lógica do funcionamento neuronal ou a psicopatologia a uma condição neurofisiológica. Em casos de trabalhos conjuntos, vale a regra da interdisciplinaridade ou da multidisciplinaridade, sem que haja necessidade de convergência das hipóteses causais (ou mesmo diagnósticas).


E o que define a prática clínica da psicanálise?


O último ponto destacado talvez seja o mais significativo dentre os três e demarca uma especificidade do tratamento psicanalítico: ele ocorre tendo a transferência como seu motor, o que somente é possível ao preço do abandono não somente da hipnose e outras formas de sugestionabilidade, mas também, abandono de um ideal de sujeito definido positivamente. A transferência estabelece um modo de vínculo baseado nos afetos que são projetados na figura do analista a partir da suposição de saber que é feita sobre ele. Por isso, além da psicanálise ser uma cura através da fala, Freud a define também como uma transformação através do amor. Na cena analítica, não estamos destinados a apenas rememorar os fatos de nossa história, mas a repeti-los, e é justamente por ser uma experiência afetiva que seus efeitos ultrapassam os limites da consciência e produzem efeitos inconscientes. Mas isso só pode ocorrer através de um movimento específico de abstinência e de trabalho sobre o eu do analista. Passar do seu eu para o lugar do analista é uma operação que demanda um cuidado especial destinado à contratransferência, ou seja, a forma como o analista se coloca na cena transferencial envolve um modelo de destituição de suas fantasias e interesses pessoais que demanda formação, análise e supervisão. O lugar do analista que nos é designado por Freud constitui-se ao preço do abandono de formas diretas de influência que levariam o analisando a um lugar específico construído nas miragens do analista a respeito do que seria saúde, desenvolvimento, sucesso ou o que quer que o valha. O desejo do analista não deve ser o de que o analisando torne-se algo que componha uma cartilha de saúde ou normalidade: o desejo do analista é desejo de análise, cabendo ao analisando fazer disso a síntese que lhe for mais eticamente alinhada ao seu desejo inconsciente. Logo, se a influência do analista tornar-se direcionada a um resultado previamente escolhido, sua técnica será sugestiva ao invés de analítica.



Recapitulando

A psicanálise é uma disciplina no interior da racionalidade científica que possui um método de clínica e pesquisa. Este método é baseado na tese de que o sujeito é dividido e de que o inconsciente sobredetermina a consciência e o pré-consciente. Enquanto método clínico, sua ação é baseada na fala dirigida ao analista, compondo uma cena transferencial que implica numa experiência tecida de afetos, sendo altamente transformativa justamente por seu poder de influência sobre o inconsciente. Mesmo partindo de teses fundamentais de Freud (a divisão do sujeito, seu descentramento e sua laicidade), a psicanálise enquanto campo permite variações, desde que não sejam contraditórias em relação ao método e que sigam premissas técnicas constitutivas do seu modo peculiar de investigação, tais como a prevalência das funções da fala em seu modo de ação, a não redutibilidade do psiquismo a outras formas de ser e o abandono da sugestão como intervenção terapêutica.

[1] Note-se que com isso não estamos reduzindo todas as formas de sofrimento à causalidade psíquica, apenas assumindo os limites do método: a psicanálise se destina ao tratamento de fatores psíquicos e, por isso, usa meios que objetivam ações sobre o psiquismo. Isso não impede, no entanto, que ela esteja presente e componha modos de intervenção em instituições que visam tratamentos de causalidade orgânica (como hospitais, unidades básicas de saúde ou clínicas médicas, por exemplo). Nestas, a psicanálise irá contribuir com a escuta e cuidado em relação aos fatores psíquicos envolvidos ou decorrentes de condições ou abalos à saúde orgânica. Exemplo disso é o sofrimento psíquico vivido com a recepção de determinados diagnósticos ou com as dificuldades implicadas em tratamentos dolorosos, em limitações impostas pelas condições de saúde entre outras.



 

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Sobre o autor:


Tiago Ravanello é psicanalista e pesquisador. Graduado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria. Mestre e doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo parte de seu doutorado sido realizada como bolsista do Centre de Sciences du Langage da Université de Paris - X - Nanterre pelo programa CAPES/PDEE. Realizou seu pós-doutorado em Psicologia/Psicanálise pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.



Revisão e publicação:


Revisão e publicação realizada pelo psicanalista e pesquisador Thales de Medeiros Ribeiro. Mestre e doutor em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-Unicamp). Pós-doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP). Vice-líder do grupo de pesquisa PsiPoliS (Psicanálise, Política, Significante) do IEL-Unicamp. Integra o Fórum do Campo Lacaniano da Região Metropolitana de Campinas (em formação), e docente da disciplina de Metodologia da Escrita e Pesquisa das especializações do Instituto ESPE.



Referências bibliográficas de apoio e sugestões de leitura


FREUD, S. (1910) Cinco lições de psicanálise. Rio de Janeiro: E.S.B., Imago, 1996. [v. XI].


FREUD, S. (1914) A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: E.S.B., Imago, 1996. [vol. XIV].


FREUD, S. (1923) Dois verbetes de enciclopédia. Rio de Janeiro: E.S.B., Imago, 1996. [vol. XVIII].


FREUD, S. (1925) Um estudo autobiográfico. Rio de Janeiro: E.S.B., Imago, 1996. [vol. XX].


FREUD, S. (1938) Esboço de psicanálise. Rio de Janeiro: E.S.B., Imago, 1996. [vol. XXIII].


GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.


JORGE, M. A. C. Fundamentos da psicanálise: de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

MONZANI, L. R. Freud: movimento de um pensamento. Campinas: Unicamp, 1989.


ROUDINESCO, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.


 

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