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A Relação do Psicanalista com a Teoria

Como deve se relacionar um psicanalista com a teoria do campo psicanalítico? Afinal, desde o início, com aquele período que Freud (1915) chama de “esplêndido isolamento”, no qual solitariamente inventava a Psicanálise em seu consultório de Viena, algo comprovável através de textos que abriram portas para a continuidade das pesquisas - que foram avançando com os outros psicanalistas, especialmente após sua morte - pode-se dizer que a teoria é um objeto de elevada importância junto aos psicanalistas. Talvez até mais do que em outras profissões, em termos comparativos, pois é comum os psicanalistas se sentirem aquém de um suposto domínio dessa teoria, como se soubessem menos ou insuficientemente em relação a um ideal tranquilizador.


Considero que isso se deva a uma razão específica pois, diferentemente de outras técnicas que se dirigem a um objeto fixo, que bastam ser aplicadas corretamente pelo profissional da área visando uma efetividade, na Psicanálise isso se dá de outra forma, pois além do inconsciente não ser fixo, tampouco a técnica psicanalítica se dá nesses moldes. Aliás, chama-se de operadores psicanalíticos o conjunto de estratégias, intervenções e atos que fazem o processo analítico fluir, que potencializam a assunção da palavra e, claro, dependendo da sagacidade de cada analista, de uma boa escuta desse material que, no final das contas, é o que de fato importa, pois a palavra é a representação da dimensão inconsciente durante a sessão.


Dessa forma, é comum o psicanalista, especialmente os mais jovens, ao se defrontarem com as dificuldades características da condução dos tratamentos, supor que, caso soubesse mais sobre teoria, se tivesse lido ou estudado mais, certamente não sofreria com as agruras que, após um tempo de percurso, se mostram até esperadas, fazem parte do processo e não podem ser aprendidas nos livros.


E nos livros estão os referenciais do campo psicanalítico, escritos por inúmeros autores, numa produção teórica impressionantemente dinâmica, com lançamentos quase diários de revistas, livros ou ainda o material virtual, que pode ser lido, assistido, ouvido ou em muitos casos, ao vivo mesmo, permitindo perguntas a um autor na hora da fala. Enfim, teoria não falta, mas como pensar numa relação razoável com esse elemento pensando-se em formação?


Penso que a saída possa ser encontrada em alguns vértices, como por exemplo um esforço para a dessacralização da palavra do outro, ou seja, resistir à tentação de ler as palavras de Freud como se fosse a verdade absoluta, quase como se dá na leitura dos textos sagrados de qualquer religião, postura que de fato não coincide com os postulados iniciados por Freud. Tomemos como exemplo dois textos clássicos, o fundamental Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise (1912) e também o igualmente importante Sobre o início do tratamento (1913), ambos conectados aos artigos sobre a técnica, que visava mostrar ao mundo um pouco do estilo de trabalho de Freud e, claro, também explicitar algo crucial para Freud, de que eram apenas recomendações e que não deveriam ser transformadas em dogmas, termo religioso que afirma que a verdade dos textos sagrados não deveria ser contestada, mas sim ser aceita sem questionamentos.


Outro vértice importante é que, desde a invenção da Associação Psicanalítica Internacional, nos idos de 1910, por Freud e seus pares, visando chancelar a formação dos psicanalistas, dando corpo a um modelo formativo oficial, que supostamente protegeria a invenção freudiana de modismos e charlatanices. O tempo mostrou que isso acabou se tornando rígido e dogmático demais, além de não conseguir barrar o surgimento de novas opções em termos de métodos formativos ao longo da história. por todo o mundo.


Dessa forma, concluindo, tenho comigo que uma das maneiras mais razoáveis de se relacionar com a teoria é tomá-la como uma grande aventura, na qual a disposição para ler e estudar esteja presente em toda sua potência.


Ler muito, mas ler por prazer, permitindo deslumbrar-se com as hipóteses de Freud e seus pares, quase como uma criança frente a um novo brinquedo, sem grandes preocupações, pois a teoria psicanalítica é, de fato, fascinante. Entretanto, em paralelo, estudar bastante, não como um bom aluno, que passivamente aguarda as orientações do professor, mas sim como um psicanalista que toma a formação nas próprias mãos, ato que problematizei em minha tese de doutorado (Santos, 2011) e que, de alguma forma, antecipa o que digo aqui nesse trabalho. Mãos à obra?







DICAS DE LEITURA PARA APROFUNDAMENTO BIBLIOGRÁFICO:


FREUD, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 12, p. 149-163).



FREUD, S. (1913). Sobre o início do tratamento. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago: 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 12, p. 164-192).



FREUD, S. (1925[1924]). Um estudo autobiográfico. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 20, p. 17-88).



SANTOS, L. A. R. O trabalho do psicanalista: das dificuldades da prática aos riscos do narcisismo profissional. 2011. 250 f. Tese (Doutorado) Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.






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